sexta-feira, 5 de maio de 2017

E Quando o Padre Perde a Vida?

Disse Jesus: “Esta é a vontade do meu Pai: que todo homem que vê o Filho e nele acredita, tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”. (Jo 6,40)

Recentemente, a notícia de que padres cometeram suicídio escandalizou muitas pessoas. Cristãos, ateus, profissionais da saúde, bispos, leigos, padres, etc., ficaram chocados porque homens que lidam com o sentido da vida perderam o sentido de viver.

Algumas pessoas (ingênuas) descobriram que os padres também têm sentimentos e que podem sofrer. Outras perceberam que muitos padres derramam o seu suor até a exaustão para ajudar as ovelhas que sofrem, mas eles não têm quem os ajude a enfrentar seus próprios problemas.

Sozinhos, incompreendidos, exaustos e frustrados, os padres nem sempre encontram força na oração e na espiritualidade, e acabam buscando conforto na bebida, no luxo ou nos braços de outra pessoa que não é Cristo. Por fim, há aqueles que tiram a própria vida. Vida que já havia sido tirada numa rotina de ativismo em meios às críticas mais cruéis e perversas.

Se você ainda não sabia, fique sabendo: nós, padres, somos seres humanos. Temos defeitos, sentimentos, fraquezas, limitações. Colocamos nossa vida nas mãos de Deus e Ele é quem faz de nós criaturas novas. Mas, alguns de nós não conseguem cultivar o sentido de Cristo numa vida exaustiva e sem “retorno” de seus trabalhos.  

Também formou-se na Igreja um clima de perseguição online dos padres. Se o padre erra na liturgia, logo é denunciado no facebook, ou é acusado ao bispo ou a nunciatura. Se o padre pensa diferente de determinados grupos conservadores, estes logo difamam o padre em sites e redes sociais.

Toda semana eu sou obrigado a responder pessoas que criticam a “comunhão na mão”. Toda semana eu devo me explicar porque eu não uso casula em todas as missas. Toda semana sou obrigado a ouvir pessoas que pedem punição aos grupos de oração porque rezam em línguas ou fazem o tal do repouso no espírito. Tudo isso suga as poucas energias dos padres.

Diante desse clima e dessas circunstâncias, nós padres buscamos somar forças com outros padres na busca de uma espiritualidade que nos sustente diante de tantas adversidades. Tenho pessoalmente encontrado força na espiritualidade discipular e me imagino como um “eremita urbano”. Um homem que vive no meio da comunidade, mas que cultiva a solidão de estar com Cristo na Bíblia e no céu estrelado acompanhado por um telescópio.

Nós precisamos repensar nossas comunidades e paróquias. Nos tornamos especialistas nas mais diversas pastorais, movimentos e grupos, gastando tempo e energia com reuniões e atividades inúteis, e abandonamos nossa especialidade primeira: formar discípulos e discípulas de Jesus. Creio que nós, padres, bispos e diáconos, seremos mais felizes se nos dedicarmos ao essencial: Cristo e comunidade. Esse assunto continua... Paz e bem!



Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, fazei que o sentido de minha vida seja vossa pessoa a me conduzir ao Pai. Seja vossa Palavra e vossa Eucaristia, o alimento a me sustentar neste mundo tão complexo. Seja o vosso Espírito a luz que alumia o meu caminhar entre as trevas da ignorância. Que na solidão eu não me sinta só, pois estais comigo. Assim seja, amém!

Pe. Demetrius Silva