segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Banalização do Amém no Catolicismo

Disse Jesus: Ao anjo da igreja que está em Laodicéia, escreve: "Assim fala o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus”. (Ap 3,14)

A palavra Amém sempre foi, para a Igreja Católica, um indicativo de adesão e afirmação de fé. Utilizada nos finais das orações e profissões de fé, ela estabelece nossa total adesão à verdade que se impõe à nossa razão. O Amém é utilizado em momentos fortes de nossa relação com Deus.

Ultimamente, vemos em nossa Igreja a banalização da palavra Amém. O Amém está sendo utilizado como uma interjeição sem sentido, um cacoete sem nexo com a fé. Há muitos anos, o Amém já havia sido banalizado nas igrejas pentecostais. Esse fenômeno, agora também pertence à nossa Igreja. Recentemente, numa missa, o comentarista falava: “Amados, no próximo fim de semana teremos festa. Amém? Na quinta-feira vai acontecer o terço na casa da dona Maria. Amém? No dia 15, teremos ensaio. Amém?”

O Amém é uma palavra hebraica (אָמֵן) que indica a ideia de firmeza e de realidade. Alguns estudiosos relatam que o Amém era a última estaca pregada ao chão para dar firmeza à tenda. De difícil tradução, popularizou-se a  ideia de que significa assim seja. É fato que essa palavra não tem tradução direta para a nossa língua.

No Evangelho de São João, Jesus diversas vezes diz a palavra Amém. Por exemplo: ”Jesus respondeu, e disse-lhe: Amém, amém eu te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus". (Jo 3,3) Aqui, a palavra Amém é traduzida pela expressão "em verdade”. Indica uma máxima de testemunho de fé.

Em todos os sentidos, o Amém é utilizado somente em coisas muito sérias. E dizer “Amém” para qualquer coisa demonstra nosso pouco conhecimento e vivência de fé. Infelizmente, ainda importamos coisas ruins de outras Igrejas. Nós católicos não devemos dizer amém para tudo. Devemos nos corrigir desse cacoete pentecostal e retomar  a importância dessa palavra nos momentos cruciais de nossa caminhada de fé. Se hoje tem gente na Igreja que fala amém para tudo, muitos não dizem o amém quando vão comungar o Corpo e o Sangue de Jesus. O padre diz: “O Corpo de Cristo”, e a pessoa toma a hóstia sem nada dizer. 

O amém é palavra de Fé, e como como palavra de fé deve manifestar a Fé que recebemos da Igreja, através das Escrituras e da Sagrada Tradição. 

Por fim, é importante lembrar que Jesus Mestre é o verdadeiro Amém, para a glória de Deus Pai. É Ele quem dá sustento para a nossa fé e corrige nossos desvios pela ação de seu Evangelho. Jesus é a Verdade e, com isso, o seu Amém foi na Cruz a adesão de seu sangue derramado para a salvação de todos. O amém não deve ser banalizado jamais.



Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, o Amém e a Testemunha Fiel, fazei que a Verdade que sois vós, ilumine a minha vida de tal maneira, que eu possa ser um convosco. Assim seja. Amém! 



Pe. Demetrius dos Santos Silva

sexta-feira, 5 de maio de 2017

E Quando o Padre Perde a Vida?

Disse Jesus: “Esta é a vontade do meu Pai: que todo homem que vê o Filho e nele acredita, tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”. (Jo 6,40)

Recentemente, a notícia de que padres cometeram suicídio escandalizou muitas pessoas. Cristãos, ateus, profissionais da saúde, bispos, leigos, padres, etc., ficaram chocados porque homens que lidam com o sentido da vida perderam o sentido de viver.

Algumas pessoas (ingênuas) descobriram que os padres também têm sentimentos e que podem sofrer. Outras perceberam que muitos padres derramam o seu suor até a exaustão para ajudar as ovelhas que sofrem, mas eles não têm quem os ajude a enfrentar seus próprios problemas.

Sozinhos, incompreendidos, exaustos e frustrados, os padres nem sempre encontram força na oração e na espiritualidade, e acabam buscando conforto na bebida, no luxo ou nos braços de outra pessoa que não é Cristo. Por fim, há aqueles que tiram a própria vida. Vida que já havia sido tirada numa rotina de ativismo em meios às críticas mais cruéis e perversas.

Se você ainda não sabia, fique sabendo: nós, padres, somos seres humanos. Temos defeitos, sentimentos, fraquezas, limitações. Colocamos nossa vida nas mãos de Deus e Ele é quem faz de nós criaturas novas. Mas, alguns de nós não conseguem cultivar o sentido de Cristo numa vida exaustiva e sem “retorno” de seus trabalhos.  

Também formou-se na Igreja um clima de perseguição online dos padres. Se o padre erra na liturgia, logo é denunciado no facebook, ou é acusado ao bispo ou a nunciatura. Se o padre pensa diferente de determinados grupos conservadores, estes logo difamam o padre em sites e redes sociais.

Toda semana eu sou obrigado a responder pessoas que criticam a “comunhão na mão”. Toda semana eu devo me explicar porque eu não uso casula em todas as missas. Toda semana sou obrigado a ouvir pessoas que pedem punição aos grupos de oração porque rezam em línguas ou fazem o tal do repouso no espírito. Tudo isso suga as poucas energias dos padres.

Diante desse clima e dessas circunstâncias, nós padres buscamos somar forças com outros padres na busca de uma espiritualidade que nos sustente diante de tantas adversidades. Tenho pessoalmente encontrado força na espiritualidade discipular e me imagino como um “eremita urbano”. Um homem que vive no meio da comunidade, mas que cultiva a solidão de estar com Cristo na Bíblia e no céu estrelado acompanhado por um telescópio.

Nós precisamos repensar nossas comunidades e paróquias. Nos tornamos especialistas nas mais diversas pastorais, movimentos e grupos, gastando tempo e energia com reuniões e atividades inúteis, e abandonamos nossa especialidade primeira: formar discípulos e discípulas de Jesus. Creio que nós, padres, bispos e diáconos, seremos mais felizes se nos dedicarmos ao essencial: Cristo e comunidade. Esse assunto continua... Paz e bem!



Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, fazei que o sentido de minha vida seja vossa pessoa a me conduzir ao Pai. Seja vossa Palavra e vossa Eucaristia, o alimento a me sustentar neste mundo tão complexo. Seja o vosso Espírito a luz que alumia o meu caminhar entre as trevas da ignorância. Que na solidão eu não me sinta só, pois estais comigo. Assim seja, amém!

Pe. Demetrius Silva

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Na Beira do Abismo

Tu me atiraste no abismo, bem no fundo do mar. Ali as águas me cercavam por todos os lados, e todas as tuas poderosas ondas rolavam sobre mim. (Jn 2,3)

Nos últimos dias sinto que existência humana chegou à beira do abismo. A selvageria irracional eclode em todos os lugares de tal maneira que a racionalidade, característica principal que define o ser humano, encontra-se moribunda. A insanidade generalizada de nosso tempo assume formas trágicas de violência que alcançam os limites do absurdo e, como um ralo no fundo de uma piscina, busca dragar-nos retirando-nos a possibilidade de viver a paz e em paz.

Muitas vezes perguntei a mim mesmo se ainda vale a pena lutar pela paz e anunciar o amor, pois sinto que estamos muito próximos da autoextinção. Mesmo com o desejo de desistir, lembro-me de São Paulo a nos dizer: “Ai de mim se não evangelizar!” (1Cor 9,16). O anúncio do Evangelho não é uma opção do discípulo de Jesus, mas é uma necessidade vital.

Quando alguém é marcado por Cristo, toda a genética de sua alma é transformada por Ele de tal forma que a vida não encontra sentido fora dEle. Diante do abismo em que encontra-se a humanidade, só em Cristo teremos força de continuar caminhando para frente.

Soren Kierkegaard, cristão e filósofo, dizia: “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas, só pode ser vivida olhando-se para frente”. Todo abismo gera medo e incompreensão. Mas é diante do abismo que podemos crescer de forma absoluta. É agora o momento onde a humanidade pode ser verdadeiramente humana. O abismo não é o fim, mas sim a grande oportunidade de darmos um salto em direção ao infinito e absoluto. É crendo em Cristo que daremos esse salto.

Chesterton dizia: “Quando estamos na beira do abismo, a única maneira de progredir é retroceder”. Discordo. Há abismos que não nos permitem voltar atrás. Ou ficamos parados ou damos o salto. Kierkegaard também dizia: “A porta da felicidade abre só para o exterior; quem a força em sentido contrário acaba por fechá-la ainda mais”. É no momento difícil diante do abismo que a humanidade pode dar um salto para a felicidade. É em Cristo que o salto alcançará o absoluto. Paz e bem!

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, encontro-me diante do abismo unido a toda humanidade. Diante da escuridão total, apenas em Vós encontro luz. Confio que, caminhando para frente, encontrar-me-ei convosco e que vossas mãos me segurarão em toda queda. Assim seja, amém!



Pe. Demetrius Silva