segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO

 
           A fé cristã é diferente de todas as outras. A religião cristã é incompreendida e perseguida em muitos lugares. Ela é tida por absurdo pelo fato de crer que Deus é único, mas é três pessoas e, assim, a fé cristã é acusada de ser um politeísmo (crença em vários deuses) disfarçado. Mas, o que mais escandaliza todas as outras religiões é a ideia de que Deus imutável possa mudar e assumir plenamente a realidade humana: Deus encarnou-se, isto é, fez-se humano e assumiu a imagem e semelhança de sua criatura.

            A encarnação de Cristo, na plenitude dos tempos, inseriu em nossa temporalidade que passa um relampejo da eternidade que não passa. Este relampejo que durou cerca de 33 anos transformou todo o universo inserindo em cada partícula a semente da salvação.

            Porém, não podemos nos enganar. A encarnação de Deus não é um conto de fadas e nem uma história de ninar. A criação toda está gemendo em dores de parto (Rm 8,22) e o sofrimento humano é compartilhado por todas as criaturas. É nesse mundo de dor e sofrimento que Jesus, epifania do amor do Pai, encarnou-se. Ele tornou-se frágil, sendo uma criança que necessitou de todos os cuidados de mãe e de pai. Ao assumir a carne humana, Jesus teve a necessidade de ser cuidado por Maria e José, num tempo de perseguição e extremo sofrimento. Nada de fraldas descartáveis e pediatras de nosso tempo.

            A encarnação é escândalo porque a cruz é escândalo. Jesus nasce para morrer na cruz. A Encarnação acontece em função do mistério pascal.

            A humanidade, no início, optou por conhecer o mal e foi seduzida pela serpente e assim desfigurou-se sua imagem: de imagem e semelhança de Deus, nos tornamos imagem e semelhança da antiga serpente. Não dá para permanecer no jardim de Deus sem ser semelhança dEle. Desse modo, a humanidade foi expulsa, ou melhor, expulsou-se de Éden. Deus, em diversas tentativas, quis trazer a humanidade de volta ao jardim. Mas, a humanidade continuava a optar pelo mal enamorando-se pelo pecado.

            Deus então resolve sair do jardim para, Ele mesmo, reintroduzir a humanidade em Éden. Deus fez-se imagem e semelhança do humano, para mostrar como devemos ser humanos. Cristo assumiu a carne humana em sua total fragilidade e ocupou a posição mais baixa: a de escravo. E, passando pela cruz (a pior morte), venceu o fruto do pecado (a morte) e reintroduziu a a humanidade no jardim celeste.

            O Mistério da encarnação só pode ser entendido sob a penumbra do Mistério da Cruz. E o Mistério da Cruz não pode ser entendido, mas experimentado no amor. Ao tornar-se a criança de Belém, Jesus dava o primeiro passo para reintroduzir-nos no Paraíso. Na cruz, Jesus dava a própria vida, o último passo da salvação. Da cruz, todo o resto é consequência do amor: a ressurreição e o Reino definitivo. Como discípulos de Jesus, a encarnação também deve ser o primeiro passo...


Paz e Bem e Feliz Natal!


Padre Demetrius

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Discípulo Cansado

Ele, porém, me respondeu: «Para você basta a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder.» Portanto, com muito gosto, prefiro gabar-me de minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. E é por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte. (2Cor 12,9-10)


Mestre, preciso te falar
Chego ao fim deste dia cansado, exausto.
Mas, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Meus passos estão mais curtos.
Minhas mãos perdem firmeza.
Minha memória... Esqueci...
Mestre, meus olhos são falhos...
Meus ouvidos querem ficar moucos.
Pois, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Minhas células se tornam tóxicas,
Minha voz enfraquecida
Canta e grita sem ser ouvida,
Minhas idéias esquecidas
São o que sobrou de mim.
A gravidade se faz mais pesada
Sobre meu frágil esqueleto
E meu coração vacilante
Bate errado a todo instante.
Mas, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Mestre, quando eu olho à minha volta
Vejo triste poucas formas.
Como num espelho turvo
Vejo os outros em sofrimento.
Somos como uma família
Muito unida no sofrer.
Já não tenho otimismo
Porque venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Mestre, perdoa-me os lamentos,
São meus pobres sentimentos
Que eu quero partilhar.
Sei que me escutas,
Meus resmungos e lamúrias
E meu coração a reclamar.
Mestre, eu sei muito bem
Que sofreste muito além
Do que eu possa imaginar.
Mas, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Mestre, já estou de saída
Pois eu venho na lida
Para te anunciar.
Porém, eu compreendo
Que nas minhas fraquezas
Tua força está.
Mestre, todo o meu cansaço,
Todo o meu sofrimento
Quero te ofertar.
Mestre, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.
Mas, não me canso de Ti,
Não me canso de ti.
E não me canso de ti.



Pe. Demetrius


sábado, 14 de maio de 2016

O Espírito Santo é Especialista em Cristo


Arte: Lúcio Américo Arte Sacra
Disse Jesus: "O Espírito da Verdade manifestará a minha glória, porque ele vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês. Tudo o que pertence ao Pai, é meu também. Por isso é que eu disse: o Espírito vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês." (Jo 16,14-15)

Padre, por que a Igreja fala tão pouco do Espírito Santo?  Essa pergunta foi-me feita por uma jovem, após um retiro onde ela experimentou a vivência do Espírito Santo.

De fato, das pessoas da Santíssima Trindade, o Espírito Santo é o menos falado. Mas, não é à toa. Para entendermos a questão, encontraremos a resposta no jeito de ser do próprio Espírito Santo.

O Pai que tudo cria, cria por amor ao contemplar o amor de seu Filho unigênito. O Filho, ao contemplar o amor do Pai, salva todos por amor. O amor do Pai para com o filho, e o amor do Filho para com o Pai é tão gigantesco que não se contém. O amor infinito entre o Pai e o Filho, amor que não se contém, é tão maravilhoso que não é apenas um sentimento, mas uma pessoa: o Espírito Santo.

O Pai nos dá o maior e melhor presente: o Filho unigênito. Ao amar e louvar o Filho, estamos amando e louvando o Pai. A alegria do Pai é ver seu Filho amado por todos.

O Espírito Santo é o especialista em Jesus. É o Espírito Santo que mantém entre nós e em nós a presença de Jesus, caminho que leva ao Pai. Sem o Espírito Santo não há vida. O Espírito Santo só sabe falar de Jesus. Se o Pai nos dá o Filho e o Filho só sabe falar do Pai, o Espírito Santo só sabe falar de Jesus. O Espírito não fala de si mesmo e, por isso, pouco aparece. Mas sua presença é fortemente sentida por quem ama a Deus, pois é o Espírito que coloca dentro de nós a presença de Jesus.

O Espírito Santo é tímido para falar de si e extrovertido para falar de Jesus. Quando nos abrimos ao Espírito Santo nosso ser fica totalmente sedento de Jesus e por Ele somos guiados. Os dons doados pelo Espírito nos enchem dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus.

Assim, o Espírito Santo nos ensina que tudo deve ser por Cristo, com Cristo e em Cristo e isso explica por que falamos tão pouco do Espírito Santo, pois para Ele só Jesus interessa. O Espírito Santo é o toque suave do amor de Cristo que nos leva ao Pai. Paz e bem!!!

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, enviai vosso Espírito Santo sobre mim afim de que eu possa fazer vossa vontade, que é a vontade do Pai. Que o Espírito da verdade coloque dentro de mim a vossa presença e que o amor Pai resplandeça em minha vida. Assim seja. Amém


Pe. Demetrius Silva 


quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Controle de Deus

O Senhor renova as minhas forças e me guia por caminhos certos,
como ele mesmo prometeu. (Sl 23,3)


Muitas vezes eu olho à minha volta e me questiono sobre os rumos que a humanidade tem tomado. Tanta discórdia, corrupção, mortes e toda espécie de maldades extremas têm feito de nosso mundo um local onde a esperança, a última que morre, morra. Dá-se a impressão de que Deus abandonou o mundo à sua própria sorte e que não há mais o que fazer: o fim está próximo. 

Mas, isso é apenas uma impressão. A impressão de que Deus não está no controle do mundo. Quando mais jovem eu pensava que tinha o controle de minha vida. Mas, muitas coisas que eu tinha planejado para a minha vida deram “errado” e foram “por água abaixo”. Percebi que o controle de minha vida estava além de meu alcance. Mas não conseguia compreender este mistério.

Recentemente, eu vi uma mãe levando sua filha num carrinho rosa. O carrinho tinha forma de automóvel e a menina o dirigia com alegria. Ela fazia com a boca o barulho de motor e virava o volante como uma motorista experiente. Por diversas vezes ela buzinava como que pedindo passagem. Mas era a mãe quem verdadeiramente pilotava o carrinho.

Ao contemplar essa bela imagem da vida real, eu pude compreender um pouco o mistério do controle de Deus. Sou como a menina dentro do carrinho. Penso e desejo estar no controle de minha vida. Posso interferir nos eventos que estão ao meu alcance. Posso buzinar, posso pisar no freio, virar o volante e colocar o cinto de segurança, como fez a menina. Mas não tenho o controle de minha vida. Da mesma forma que a mãe conduzia o carrinho, minha vida é conduzida por Deus. Ele é quem me conduz pelos caminhos esburacados desta minha vida. Tantos planejamentos que eu realizei não aconteceram da forma que eu queria. Porém, sempre percebi o carinho de Deus para comigo, mesmo sem entender os seus planos.

Como aquela mãe conduzindo o carrinho de sua filha, Deus conduz a nossa vida e a história de nosso mundo. Apesar de pensarmos que o mundo esteja fora de controle, Deus está no comando e vai conduzir o carrinho de nossas vidas para o melhor destino possível. Mas a estrada é cheia de buracos que não compreendemos, pois nossa visão é limitada porque estamos dentro do carrinho de nossas vidas. Mas aquele que é Eterno está atrás de nós com suas mãos no controle. Ele tem a visão total de nosso horizonte e nos conduz, não para onde queremos, mas para onde devemos ir. Cabe a nós usarmos a nossa liberdade para manter nosso carrinho em ordem, isto é, nossa vida em sintonia com a vida.


Oração: Senhor, Jesus Cristo, Mestre de mim, conduzis minha vida por estradas que eu não compreendo. Fazei que, nos momentos de fraqueza onde não entendo o mistério do viver, possa compreender e sentir que vós estais no controle de nossa história e proclamar para toda a humanidade a esperança de um mundo novo, a civilização do amor. Assim seja. Amém!

Pe. Demetrius dos Santos Silva



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Fugir sempre da dor?


E Jesus, chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. (Mc 8,34)




A dor é algo ruim. Seja física, psicológica ou espiritual, a dor é algo que evitamos a qualquer custo. Apesar do avanço da medicina na produção e descoberta de anti-inflamatórios e analgésicos, ainda convivemos com situações onde a dor é insuportável e a medicina não está ao alcance de todos. Quanto mais pobre, mais vulnerável a dor e à falta de assistência médica. Muitas pessoas passam pela dor extrema e não são socorridas. A dor tira a paz.

Contra a dor psicológica e espiritual não existem anti-inflamatórios ou analgésicos. Ela só pode ser enfrentada de duas formas: fugindo ou confrontando.

Nossa sociedade optou por fugir da dor psicológica e espiritual. Criou-se vários modos de fugir da dor escamoteando-a para se fingir que ela não existe; ocultando sua origem e desviando o foco de sua causa para algo que não existe. Trocando em miúdos: não se enfrenta a causa da dor e coloca-se a culpa noutra coisa.

E a religião? Boa parte dos grupos religiosos optou por fugir da dor e não enfrentá-la cara a cara. Parte resolveu ganhar dinheiro com a dor alheia. Quanto mais as pessoas fogem da dor, mais a dor continuará em suas vidas, e mais lucro darão aos exploradores da dor. Culpam demônios, encostos, feitiçarias, ou qualquer outra coisa, pelas dores de nossa vida, e com isso ganham uma multidão de pessoas que optaram por fugir...

Todos enfrentamos situações que nos causaram e ainda causam dor. Fugir delas não ajuda no processo de cura interior. Nossa alma é profundamente influenciada pelas situações de dor e de trauma e, com toda certeza, elas também são constitutivas de nossa personalidade. Alcançam a paz aqueles que enfrentam a dor e o trauma.  O filósofo católico-maronita Gibran Khalil Gibran disse: “Do sofrimento emergiram os espíritos mais fortes, as personalidades mais sólidas estão marcadas com cicatrizes.


Lutar contra a dor da alma (sofrimentos e traumas) é enfrentar o passado e o presente, aceitando nossa história e superando tudo aquilo que nos fez parecer o que não somos. Somos humanos e insubstituíveis. Fugir dessa dor é deixar de ser quem somos. Enfrentá-la é, de certa forma, descobrir nossa própria vocação. 

Um conselho final: tenha bons amigos. Eles são um verdadeiro tesouro.




Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, Vós que carregais as vossas e as minhas dores, ajudai-me a encarar o meu passado com serenidade, de tal maneira que eu aceite a minha história e meus sofrimentos e, convosco, viver a paz. Assim seja. Amém!


Pe. Demetrius dos Santos Silva