quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

5. Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Oração: não falar de Deus, mas falar com Deus

Um dia Jesus estava orando num certo lugar. Quando acabou de orar, um dos seus discípulos pediu: — Senhor, nos ensine a orar, como João ensinou os discípulos dele.  Jesus respondeu: — Quando vocês orarem, digam: “Pai, que todos reconheçam que o teu nome é santo. Venha o teu Reino... 
(Lc 11,1-2)


Ouvimos a voz de Deus através de sua Palavra. Meditamos a voz de Deus que nos motiva a mudar de vida. No caminho de Emaús, Jesus partilhou o pão e os discípulos reconheceram a presença do Mestre. Eles louvaram a Deus por tamanho amor: “Não estava o nosso coração ardendo...”

Agora é hora de perguntar: “O que esta Palavra me faz dizer a Deus”? Sim, agora devemos falar. Nossa prece nasce da Palavra meditada. Chegou a hora de respondermos a Deus. Nossa leitura Orante se transforma numa deliciosa conversa com Deus. Louvarei a Deus por seu infinito amor. 

A oração que agrada ao Pai é a de Jesus. Minha prece se mistura com a de Jesus e isso agrada ao Pai. Pedirei ao Pai sua força, seu carinho, sua ternura e seu amor, porque sou fraco... Intercederei por aqueles que precisam de vida, de paz, de amor. Serei o intercessor pelo mundo. Agradecerei pela vida, pela força, pelo amor. Perdoarei meus irmãos e irmãs. Pedirei: “Senhor, ajuda-me a cumprir sua vontade”! Estou na intimidade com Deus, por isso devo rezar por minha comunidade, pela minha família, por meu grupo, pois não estou sozinho...

Aprendi com minha mãe que, ao rezar, devo elogiar a Deus, isto é, reconhecer sua grandeza, sua bondade; depois pedir que a vontade de Deus se realize em minha vida e em todo o mundo; em seguida, devo pedir a Deus que me dê o necessário para viver, só o necessário, reconhecendo minha dependência de Deus; devo perdoar meus irmãos e meus inimigos e pedir o perdão de Deus de meus pecados, reconhecendo minha dependência espiritual de Deus; enfim peço a proteção de Deus e a libertação de todo o mal.

Percebi que minha mãe rezava de acordo com o que Jesus ensinou no Pai-nosso (Mt 6; Lc 11). Percebi que minha mãe é uma sábia. Ela foi minha “mestra” de oração sem saber disso. Não preciso usar palavras bonitas. Não devo me preocupar com a gramática. Devo apenas deixar meu coração falar, amar, sonhar. O diálogo entre pessoas que se amam se faz com o olhar, com o coração, com a boca, com todo o ser...


Padre Demetrius Silva

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

4. Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Meditação: dialogar com o Texto / dialogar com Deus

Disse Jesus: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer." (Jo 15,5)

No caminho de Emaús, Jesus dialoga com os discípulos e faz o coração deles arder de amor. Os discípulos começam a mudar de vida. É o início da conversão. 

Eles pedem para Jesus permancer com eles... Fazer meditação é dialogar ativamente com o texto bíblico. 

É conversar com Deus através de sua Palavra. É confrontar nossa vida com a vontade de Deus para fazer o que Deus quer de nós. Isso exige uma “conversa grande” com Deus: conversão... 

Devemos perguntar: o que Deus fala para mim? Devemos deixar que o sentido do texto penetre em nossa vida para colocarmos em prática a vontade de Deus. Devemos nos esforçar para anotar os apelos de Deus para, depois, colocá-los em prática. 

Um caderno para anotar os apelos de Deus é de grande ajuda. Devemos anotar as dúvidas que aparecem e, mais tarde, procurar ajuda nos livros e na comunidade, pois duas cabeças pensam melhor do que uma...

Diante do amor de Deus, humildemente reconhecemos que nossos desejos pessoais entram em conflito com a proposta de Deus. Precisamos mudar de idéia e de vida. Isso dói!!! Mas faz um bem enorme. 

Meditar é dialogar. Deus fala no silêncio e no silêncio escutamos a voz de Deus. 

Perguntemo-nos: Qual versículo me chamou mais a atenção? Quais apelos Deus me faz? O que devo fazer? O que preciso mudar em minha vida? É isso, meditação de verdade é só pela verdade. 

É na meditação que muitas pessoas desanimam, pois elas têm medo de mudar de vida. Nunca é tarde para mudar. Deus está do nosso lado para isso! Conte com a ajuda do Mestre Jesus. Fale com Ele. Pergunte para Ele. Escute-o com o coração...

“A vida ensina que a felicidade jorra da intimidade. Não há outra fonte. Pode haver prazer na apropriação, alegria no encontrojúbilo numa boa surpresa. Porémfelicidadecomo profundo deleite do espíritosó na intimidade amorosa, na oração sem imagens e palavras, na contemplação do belo, no acolhimento do ser queridona entrega ao mistério, na eternização subjetiva de um momento, na poesia de um toqueum gesto, uma palavra que traz em si plenitude. Ausência de desejos; tão só deixar-se sorver pelo esplendor de uma paz que ora vem como brisa suave, ora sopra como vento forte e assustador.” 
(Frei Betto)



Pe. Demetrius dos Santos Silva



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

3. Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Leitura da Palavra

"Quando recebi as tuas palavras, eu as devorava. A tua palavra era festa e alegria para o meu coração, porque eu levava o teu nome, ó Senhor, Deus dos exércitos.” (Jr 15,16)

No caminho de Emaús (Lc 24,13-35), Jesus se aproxima dos discípulos e lhes explica as Escrituras. 

Todo processo de Leitura Orante deve iniciar pelos Evangelhos, pois Jesus é o verdadeiro intérprete da Palavra de Deus. 

Vale a pena começarmos pelos Evangelhos para que Jesus nos introduza no mundo da Bíblia. É o Novo testamento que ilumina o Antigo Testamento, não o contrário. Em pouco tempo o Antigo Testamento nos será familiar.  

Antes de iniciar a Leitura Orante já devemos estar com o texto bíblico escolhido. No início não usaremos um texto muito longo.
  • Agora, devemos ler o texto inteiro com bastante atenção.
  • Após a leitura, devemos fechar nossos olhos e tentar recontar o texto para nós mesmos. Caso falte alguma parte do texto, devemos reler o texto e voltar a recontar.
  • Memorizado o texto, devemos reler calmamente, anotando, sublinhando os aspectos principais do texto que é a Palavra de Deus. Prestar atenção para a voz de Deus. 
  • Perceber as personagens do texto, o papel de cada uma.. Notar o ambiente, a época, a linguagem, as ações e reações, a poesia, etc.

É preciso deixar o texto falar por si mesmo. A grande pergunta é: “O que o texto me diz”? 

Lembre-se: o texto bíblico é a Palavra de Deus na história do povo. A Bíblia nasceu no coração de Deus e no coração do povo. Por isso precisamos respeitar o texto. Preciso ter consciência de minha pobreza e silenciar o meu coração para que a Bíblia fale por si mesma. Devo deixar o texto falar e na humildade e no silêncio lutar para não levar o texto a dizer aquilo que eu quero ouvir. 

Importante: ao ler o texto bíblico, o texto bíblico também nos lê. Tua Bíblia não é tua, mas é do povo de Deus. Você pode grifar, sublinhar, anotar... Tua Bíblia, com as tuas anotações continua a crescer, pois Deus fala em ti...

Marque com uma interrogação(?) palavras ou frases difíceis e depois da oração procure o significado. Marque com uma exclamação (!) o que é principal. Marque com (*) os apelos da voz de Deus.



Padre Demetrius Silva

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

2. Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Invocar o Espírito Santo

Disse Jesus: “O Espírito da Verdade manifestará a minha glória, porque ele vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês. Tudo o que pertence ao Pai, é meu também. Por isso é que eu disse: o Espírito vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês.” (Jo 16,14-15)
           
             O Espírito Santo é o Mestre da oração. É o Espírito Santo que mantém entre nós a presença de Jesus, caminho que leva ao Pai. Sem o Espírito Santo não há vida. Sem Ele não há oração. 

       É o Espírito Santo quem faz a Igreja interpretar as Escrituras. Em nossa oração, devemos sempre tomar consciência da presença do Espírito Santo, luz de Deus, que ilumina e, com Jesus, nos conduz ao deserto da oração. Invocar o Espírito Santo não é chamá-lo para vir sobre nós, como se Ele não estivesse presente.

  Ao contrário: invocar o Espírito Santo é nos fazer presente diante do Espírito de Deus que, desde o início da Criação, pairava sobre as águas e que o convidamos para habitar nosso coração.

            Nossa oração só será oração pela ação misteriosa do Espírito Santo, e é nEle que ouviremos a voz do Pai pela Palavra de Jesus. Assim, devemos invocar o Espírito Santo para que Ele assuma o comando de nossa Leitura Orante da Bíblia e nos revele o que Deus nos fala. 

             Cantar uma música do Espírito Santo, rezar o “Vinde Espírito Santo” é a abertura total à presença do Semeador da Palavra que lança sua semente de amor e vida em nosso coração. Quando rezamos assim, é o Espírito quem conduzirá nossa oração.

           Uma lembrança: o Espírito Santo é luz para a comunidade. Devemos rezar sempre unidos aos irmãos, mesmo estando “sozinhos”. Por mais pessoal que seja a oração, somos membro de uma comunidade de fé que tem uma longa história: a História da Salvação. 

             O Espírito Santo ilumina toda a Igreja. Ele ilumina nossa oração, nossa Leitura Orante da Palavra, nossa vida. Invocar o Espírito Santo, mas sem perder a dimensão comunitária.




Pe. Demetrius Silva



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

1. Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Ambientação

Mas você, quando rezar, vá para o seu quarto, feche a porta e reze ao seu Pai, que não pode ser visto. E o seu Pai, que vê o que você faz em segredo, lhe dará a recompensa. (Mt 6,6)

1. Preparar o Ambiente:

            Toda oração deve ser preparada com amor. A oração é a conversa, o diálogo com a pessoa mais importante. Devemos, numa atitude de amor, preparar a terra para receber a semente. Em oração, temos de preparar o ambiente exterior: sala, quarto, altar, canto, etc., e também preparar o coração: sentimentos, silêncio interior, transparência, etc...

a) Preparar o ambiente exterior

            Aprendi com os jovens que o ambiente exterior deve refletir nosso amor. Por isso, a vela acesa é sinal de que “Deus está presente”. Uma almofada e, sobre esta, a Bíblia é a acolhida da Palavra em nosso coração. O perfume ou incenso nos recorda o suave e gostoso odor de Cristo em nossa vida que, pelo Espírito Santo, invade nossas narinas e enche nossos pulmões de vida. Uma simples flor é sinal de amor e presença de toda a Criação em nosso altar pessoal. Outros elementos são acrescentados de acordo com a criatividade. Uma face amorosa de Jesus Mestre toca o coração através de seu olhar de ternura. Dois gravetos entrelaçados nos recordam a Doação total de Jesus na Cruz. Meu quarto, meu cantinho se tornou numa verdadeira capela de louvor...

b) Preparar o ambiente interior

            A oração é diálogo interior com Deus. O Mestre Jesus nos ensinou a rezar com o coração. Ele ia para a montanha e passava horas em diálogo com o Pai. Ele carregava em seu coração as Escrituras e meditava sobre elas com muito amor. O coração do Mestre era e é um ambiente preparado para a conversa com Deus. Jesus mais escutava do que falava...

            Aprendi com os idosos que é preciso fazer silêncio para escutar a voz de Deus, a brisa leve soprando com ternura. Assim, em nossa oração precisamos silenciar nosso coração. Um pequeno e suave fundo musical entra em contato com nosso interior e abre o caminho para a passagem da brisa leva. Um pequeno refrão, repetido algumas vezes, é sinal de nossa abertura para a voz do Senhor. Algumas respirações suaves e profundas preparam nosso espírito para acolher o Espírito Santo, Mestre de oração. Sentar-se confortavelmente imaginando-se na presença do Pai, no colo de Jesus Mestre, imaginar o rosto de Cristo, nos insere no Mistério Divino. Desliga-se o fundo musical, cessam-se as preocupações, silencia-se o coração, acalma-se a mente. Agora somos terra boa onde a semente da Palavra pode brotar, crescer e dar frutos: cem, sessenta, trinta por um. Tomar consciência das preocupações, inquietações, pecados, pequenez...

            Quando silencio o meu coração torno-me transparente diante de Deus, apresento-me como sou verdadeiramente, pois a “mentira é inimiga do silêncio!” Sendo quem sou, as Escrituras encontram no meu silêncio uma verdadeira caixa de ressonância onde ecoará o amor de Deus. O silêncio do Coração é como a caixa do violão, onde o dedilhar das Escrituras faz soar a bela melodia do Amor de Deus.


Padre Demetrius Silva

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Introdução

Disse Jesus: "Não foram vocês que me escolheram; pelo contrário, fui eu que os escolhi para que vão e dêem fruto e que esse fruto não se perca. Isso a fim de que o Pai lhes dê tudo o que pedirem em meu nome." (Jo 15,16)

            Em minha vida de padre somada aos anos de seminário e à experiência da vida religiosa franciscana, pude experimentar muitas mudanças na Igreja.

         O que mais tem despertado a minha atenção nos últimos anos é o cansaço e o desânimo que atingiram os cristãos, principalmente os agentes de pastoral. Muita gente está desanimada com a Igreja e já não mais confia em seus pastores. São tantas as reclamações: padres burgueses , insensíveis e autoritários; bispos vivendo como príncipes e distantes dos pobres; comunidades individualistas e fechadas; falta de acolhimento nas igrejas; mulheres desvalorizadas na tradição católica; pedofilia; amor ao dinheiro; etc. Esses são apenas sintomas de uma realidade muita clara: estamos nos distanciando do Mestre e de seu Evangelho.

            Vendo pregações nas TVs católicas, ouvindo sermões nas rádios, lendo artigos em jornais, sites e revistas, participando de reuniões, cursos e toda sorte de atividade na Igreja, começo a perceber que o Jesus que pregamos é diferente do Jesus que o Novo Testamento nos apresenta. Pregamos um Jesus por vezes duro, distante da vida, rei, insensível, legalista, misógeno, etc... No entanto, o Novo Testamento nos revela Jesus profundamente livre, libertador, solidário, empático, defensor e promotor das mulheres, simples, pobre, humilde, apaixonado pela vida, etc.

            Nos últimos tempos, o Papa Francisco tem sido a grande voz profética no mundo e na Igreja. Seu amor por Jesus Mestre tem feito a Igreja redescobrir o Evangelho e o mundo redescobrir a esperança. Ele tem convocado a todos para o diálogo amoroso com Jesus Mestre através da leitura da Bíblia. 

            Por isso, precisamos redescobrir o Jesus do Novo Testamento. Ter contato com a Palavra de Deus é essencial.  Precisamos nos colocar na condição de Discípulos e Discípulas de Jesus e dialogar com o Mestre através de sua Palavra de Amor. A Leitura Orante da Bíblia (Lectio Divina) é um instrumento nessa tarefa de redescoberta da Pessoa de Jesus.

            Hoje, fala-se muito em leitura orante. São diversas as publicações sobre o assunto. Aqui apresento minha experiência de oração discipular em oito passos:

1. Preparar o ambiente
            
2. Invocar o Espírito Santo

3. Leitura da Palavra

4. Meditação

5. Oração

6. Contemplação

7. Compromisso

8. Despedida 

            É Jesus nosso Mestre de oração. Ele conduzirá nossa experiência de contato com sua Palavra. Ele se mostrará a nós do jeito que Ele é: caminho verdade e vida.

Por fim, faço minhas as palavras poéticas e proféticas de Dostoievski ao regressar da casa dos mortos, sua prisão com trabalhos forçados na Sibéria. Dostoievski afirmou: “Às vezes Deus me envia instantes de paz; nestes instantes, amo e sinto que sou amado; foi num desses momentos que compus para mim mesmo um credo, onde tudo é claro e sagrado. Este credo é muito simples. Ei-lo: creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha nele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade”.
            
Frei Demetrius Silva