quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Padre, agora eu posso "anular" o meu casamento?

Disse Jesus: "O homem deixará seu pai e sua mãe, e os dois serão uma só carne. Portanto, eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar. (Mc 10,7-9)

            O Papa Francisco reformou nestes dias o processo jurídico de análise das causas de nulidade matrimonial.  O processo foi simplificado, reduzindo tempo e gastos. Assunto divulgado em todas as mídias, tal reforma ganha repercussão em todos os países e igrejas locais.
            Uma pessoa me procurou e me perguntou: Padre, agora eu posso "anular" o meu casamento?" A resposta é: Não!!! Não pode anular seu casamento!!!
            Ninguém pode anular um casamento. Anular quer dizer que algo que existia deixa de existir. Anular um casamento significa dizer que um casamento que existia deixou de existir.  Isso não é possível no sacramento do matrimônio. O que Deus uniu, o homem não separe!
            Sim, o que Deus uniu, ninguém tem a autoridade de separar.  Nem a Igreja, nem o Papa tem o poder de separar um casal verdadeiramente unido pelo vínculo do sacramento do Matrimônio. Somente a morte...
            As notícias da mídia veiculam a ideia de que o Papa Francisco mudou a Tradição da Igreja e sua Doutrina dizendo que ele abriu as portas para "anular" casamentos facilmente. Não! Não existe anulação de casamento na Igreja. Uma vez unido por Deus, só a morte desfaz a união.

            Então, o que a igreja faz? A Igreja verifica se o casamento foi verdadeiramente unido por Deus. Por exemplo: um casamento feito de maneira forçada não pode ser abençoado por Deus, pois Deus não abençoa a mentira. Um casamento forçado, apesar de ter sido celebrado, não existiu para Deus. Se a Igreja encontrar evidências de que o casamento foi forçado e um dos noivos foi obrigado a ser casar, a Igreja declara que o casamento não existiu, pois Deus não uniu.
            Dizer que um casamento não existiu é declarar que ele foi "nulo". Isso, NULO, sem o "a". Nulo quer dizer que não existiu, pois Deus não uniu. Mas, para declarar um casamento nulo, os separados devem provar que o casamento reuniu elementos que provam sua inexistência. E, para isso, os separados devem mover um processo no tribunal da Igreja.
            TRIBUNAL!!! Sim, tribunal. A Igreja possui seu código de Leis, o Direito Canônico. Possui tribunais onde os problemas são elucidados e o casos são julgados de acordo com o Código de Direito Canônico. Tem juízes, advogados, audiências, julgamentos... E, por fim, burocracia, muita burocracia.
            Mover um processo no tribunal envolve muitos gastos e burocracia. O que o Papa Francisco fez foi reduzir a burocracia e, com isso, reduzir gastos. Um processo podia durar anos no tribunal e era julgado em duas instâncias e até numa terceira. Simplificando o processo, basta a decisão numa instância, e, os casos especiais serão julgados no tribunal da Santa Sé.

            Assim, o processo no tribunal eclesiástico foi simplificado, mas isso não significa que a Igreja escancarará a porteira e passará a "anular" todos os casamentos. O julgamento será mais rápido e o processo mais barato. Mas, se não houver provas de que o casamento não existiu, a nulidade não será declarada. Porque o que Deus uniu, o homem não deve separar.


Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, diante desse mundo que optou pelo descartável, o amor está ferido no coração de muitas pessoas. Iluminai as profundezas de minha alma para que eu possa investir todas as minhas energias em Vós e em vosso amor. Assim seja! Amém! 

Pe. Demetrius dos Santos Silva


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A Esposa de Jesus

Jesus respondeu: «Vocês estão enganados, porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus. Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu.  (Mc 12,24-25)

Em 2012, foi anunciada a descoberta de um manuscrito que “provava" que Jesus era casado e que sua esposa se tornaria uma discípula. Assim, logo se formou um intenso debate sobre a autenticidade do manuscrito. Vários estudiosos saíram na defesa do manuscrito e declararam as bodas de Jesus. Outros estudiosos afinados com a Igreja colocaram o manuscrito sob suspeita. 

Recentemente, estudiosos das universidades Harvard, Columbia e MIT (Massachussetts Institute of Technology), declararam que o manuscrito é autentico e que ele foi escrito entre os séculos 4 e 6 d.C.

Há muita gente preocupada com esse manuscrito. Mas não criemos pânico. Vejam, dizer que um manuscrito é autêntico não significa dizer o que seu conteúdo seja verdadeiro. Dizer que um manuscrito é autêntico significa dizer que ele é bem antigo e que ele pode ser de uma data próxima ao tempo dos manuscritos bíblicos. 

Quanto ao manuscrito em questão ele é autêntico mesmo, porém ao que tudo indica ele foi levemente alterado ou corrigido. Ele foi escrito em copta, uma língua derivada do grego, um pouco mais nova que o grego bíblico, e sua grafia indica um texto mais tardio que o do Evangelho. 

A palavra "Esposa", isto é "minha mulher" está grifada, o que indica rasura, e isto significa que o texto foi provavelmente alterado numa época um pouco mais recente. Não é comum nos manuscritos coptas a existência de grifos. O texto também contém diversos erros gramaticais. Assim, apesar de ser autêntico, o manuscrito carece de credibilidade por ter sido provavelmente alterado, e isso será o debate dos próximos anos. 

Mas os apressados já imprimiram os convites do casamento de Jesus, alugaram salão, contrataram buffet e já marcaram o salão de beleza para Madalena. E contrataram Anás e Caifás para celebrarem o matrimônio. Só que não!!!

Papiro Rylands 52 - Jo 18,31-33.37-38 (+/- 130 d.C.)
Esse é antigo de verdade
Por fim, mesmo que o manuscrito não tivesse sido alterado, um texto tardio tem menos credibilidade que os Evangelhos bíblicos. E os Evangelhos tratam Jesus como um homem sem esposa, a não ser a própria Igreja. Neste sentido, encontrar um manuscrito sobre a vida de Jesus não significa que ele tenha esposa, pois existem inúmeros manuscritos também autênticos e mais antigos que falam que Jesus não teve esposa... 


Assim, tenho certeza que a única esposa que Jesus tem é a Igreja... Os manuscritos bíblicos são autênticos e contém a verdade já assumida há séculos na Igreja. Prefiro sempre os Evangelhos... Sempre!!!


Pe. Demetrius Silva

terça-feira, 7 de abril de 2015

A amor não usa o ódio

Disse Jesus: "Eu dou a vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros. Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos." (Jo 13,34-35)

Recentemente entrei em debate com um grupo numa rede social. Um homem defensor da tradição e dos bons costumes estava irado com um vídeo onde um bispo defendia um posicionamento político diante da nossa realidade.

O homem revoltado acusava o bispo de ser comunista e de apoiar o governo comunista e sentenciou que o bispo estava excomungado. Muito mal-educado, xingou a todos e a tudo e condenou todos os seus opositores aos infernos.

Ultimamente, muitos católicos têm assumido uma postura muito guerreira e mal-humorada. Tornaram-se como cães de guarda da fé, mas perderam a capacidade de amar. Suas bocas só falam de condenações, excomunhões, comunistas devoradores de criancinhas e de padres que aderiram às trevas do maligno. Essa horda de gente mal amada e mal humorada se coloca como os fieis seguidores de Jesus Cristo. Dizem seguir a doutrina de Jesus, mas esquecem de seguir suas atitudes. Jesus amou, perdoou, educou, pacificou... Os mal-humorados constroem muros enquanto Jesus constrói pontes!

Nós, cristãos devemos aprender a conviver com o diferente. O combate ao mal dá-se através do testemunho e da prática de Jesus em nossas vidas: “Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos.” (Jo 13,35)

A denúncia da maldade deve ser realizada sem perder a ternura de Jesus Cristo. De nada adianta eu combater o mal tendo os mesmos sentimentos e atitudes do maligno. Deus veio para salvar o mundo: “Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele.” (Jo 3,16-17)

Estando na cruz Jesus podia ter excomungado a todos: sacerdotes, escribas, soldados romanos e todo povo que gritara “crucifica-o”. No entanto, sem perder a ternura, Jesus manifesta seu profundo amor aprendido do Pai, dizendo: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que estão fazendo!” (Lc  23,34) Isso mesmo, Jesus não condena nem excomunga, apenas perdoa... Jesus não perde seu bom humor.

Assim, quem abraça o Mestre do amor deve combater a maldade utilizando as armas do amor, nunca as armas do ódio. O amor é o elemento principal da catolicidade e tudo o que combate o amor deve ser expurgado da vida dos católicos. Jesus deu a sua própria vida para nos salvar e para nos ensinar que só o amor é a atitude que constrói a paz e a justiça em nosso mundo. Quem quer seguir Jesus precisa assumir os riscos e as consequências do amor. É assim que combatemos o bom combate. Não podemos falar do amor através do ódio que condena o mundo. Só o amor de Jesus é que salva.



Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, vós sois o amor encarnado. Fazei que eu viva o vosso amor e não use as armas do ódio pensando assim fazer o bem. Só a vossa ternura e vosso bom humor podem trazer a paz ao nosso mundo. Dai-me a vossa paz. Assim seja!


Pe. Demetrius

sexta-feira, 20 de março de 2015

6. Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Contemplação: enxergar com o olhar de Cristo

Disse Jesus: "Permaneçam em mim e Eu permanecerei em vocês". (Jo 15,4)


No caminho de Emaús, Jesus desapareceu na frente dos discípulos e estes agora experimentaram a ressurreição. Passou o medo da noite. Jesus está dentro deles. Os discípulos de Emaús viam com os olhos de Deus. Isto é contemplação: ver com os olhos de Deus! É perceber a vida com o jeito de Jesus. Tudo se renova numa profunda atitude de amor.

Agora o silêncio atinge sua capacidade máxima. Quando duas pessoas se amam, depois da conversa vem o silêncio, porque o diálogo se faz pelo olhar, pelo toque, pela ternura. A alegria de quem ama é estar perto da pessoa amada. Paramos a conversa, mas não paramos nosso “namoro” com Deus.

            Na contemplação me “imagino” com Deus, sinto que sua Palavra agora está dentro de mim, me renovando, transformando por completo. Assimilo, dentro de mim, a Palavra amorosa do Mestre deixando seu amor me guiar. Começo a agir iluminado pelo estilo de vida de Jesus. 

          Na vida, começo sempre a me perguntar: “Como meu Mestre agiria nessa situação”? Pergunto para Ele: “Mestre, o que me sugeres que eu faça”? A palavra desce da cabeça e vai parar no coração! Na contemplação não se diz nenhuma palavra. É experiência, é sentimento! Apenas quero estar com Deus, ser com Ele. Viver nEle. Sinto que Deus me convida para algo. Aceito o convite: vou com Ele! Minha comunidade precisa de mim: um “Eu” renovado pela experiência da contemplação. Com o passar do tempo, a contemplação vira uma prática natural de nossa oração. Mas é uma prática que sempre nos provocará!


            Jesus é o novo Homem. Só seremos renovados nEle. “Se alguém está em Cristo é nova criatura; as coisas antigas passaram, eis que uma realidade nova apareceu”. (2Cor 5,17) Contemplar é deixar-se renovar por Cristo, com Cristo e em Cristo. É assumir o estilo de vida de Jesus, nosso Mestre de amor. 



Pe. Demetrius dos Santos Silva


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

5. Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Oração: não falar de Deus, mas falar com Deus

Um dia Jesus estava orando num certo lugar. Quando acabou de orar, um dos seus discípulos pediu: — Senhor, nos ensine a orar, como João ensinou os discípulos dele.  Jesus respondeu: — Quando vocês orarem, digam: “Pai, que todos reconheçam que o teu nome é santo. Venha o teu Reino... 
(Lc 11,1-2)


Ouvimos a voz de Deus através de sua Palavra. Meditamos a voz de Deus que nos motiva a mudar de vida. No caminho de Emaús, Jesus partilhou o pão e os discípulos reconheceram a presença do Mestre. Eles louvaram a Deus por tamanho amor: “Não estava o nosso coração ardendo...”

Agora é hora de perguntar: “O que esta Palavra me faz dizer a Deus”? Sim, agora devemos falar. Nossa prece nasce da Palavra meditada. Chegou a hora de respondermos a Deus. Nossa leitura Orante se transforma numa deliciosa conversa com Deus. Louvarei a Deus por seu infinito amor. 

A oração que agrada ao Pai é a de Jesus. Minha prece se mistura com a de Jesus e isso agrada ao Pai. Pedirei ao Pai sua força, seu carinho, sua ternura e seu amor, porque sou fraco... Intercederei por aqueles que precisam de vida, de paz, de amor. Serei o intercessor pelo mundo. Agradecerei pela vida, pela força, pelo amor. Perdoarei meus irmãos e irmãs. Pedirei: “Senhor, ajuda-me a cumprir sua vontade”! Estou na intimidade com Deus, por isso devo rezar por minha comunidade, pela minha família, por meu grupo, pois não estou sozinho...

Aprendi com minha mãe que, ao rezar, devo elogiar a Deus, isto é, reconhecer sua grandeza, sua bondade; depois pedir que a vontade de Deus se realize em minha vida e em todo o mundo; em seguida, devo pedir a Deus que me dê o necessário para viver, só o necessário, reconhecendo minha dependência de Deus; devo perdoar meus irmãos e meus inimigos e pedir o perdão de Deus de meus pecados, reconhecendo minha dependência espiritual de Deus; enfim peço a proteção de Deus e a libertação de todo o mal.

Percebi que minha mãe rezava de acordo com o que Jesus ensinou no Pai-nosso (Mt 6; Lc 11). Percebi que minha mãe é uma sábia. Ela foi minha “mestra” de oração sem saber disso. Não preciso usar palavras bonitas. Não devo me preocupar com a gramática. Devo apenas deixar meu coração falar, amar, sonhar. O diálogo entre pessoas que se amam se faz com o olhar, com o coração, com a boca, com todo o ser...


Padre Demetrius Silva

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

4. Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Meditação: dialogar com o Texto / dialogar com Deus

Disse Jesus: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer." (Jo 15,5)

No caminho de Emaús, Jesus dialoga com os discípulos e faz o coração deles arder de amor. Os discípulos começam a mudar de vida. É o início da conversão. 

Eles pedem para Jesus permancer com eles... Fazer meditação é dialogar ativamente com o texto bíblico. 

É conversar com Deus através de sua Palavra. É confrontar nossa vida com a vontade de Deus para fazer o que Deus quer de nós. Isso exige uma “conversa grande” com Deus: conversão... 

Devemos perguntar: o que Deus fala para mim? Devemos deixar que o sentido do texto penetre em nossa vida para colocarmos em prática a vontade de Deus. Devemos nos esforçar para anotar os apelos de Deus para, depois, colocá-los em prática. 

Um caderno para anotar os apelos de Deus é de grande ajuda. Devemos anotar as dúvidas que aparecem e, mais tarde, procurar ajuda nos livros e na comunidade, pois duas cabeças pensam melhor do que uma...

Diante do amor de Deus, humildemente reconhecemos que nossos desejos pessoais entram em conflito com a proposta de Deus. Precisamos mudar de idéia e de vida. Isso dói!!! Mas faz um bem enorme. 

Meditar é dialogar. Deus fala no silêncio e no silêncio escutamos a voz de Deus. 

Perguntemo-nos: Qual versículo me chamou mais a atenção? Quais apelos Deus me faz? O que devo fazer? O que preciso mudar em minha vida? É isso, meditação de verdade é só pela verdade. 

É na meditação que muitas pessoas desanimam, pois elas têm medo de mudar de vida. Nunca é tarde para mudar. Deus está do nosso lado para isso! Conte com a ajuda do Mestre Jesus. Fale com Ele. Pergunte para Ele. Escute-o com o coração...

“A vida ensina que a felicidade jorra da intimidade. Não há outra fonte. Pode haver prazer na apropriação, alegria no encontrojúbilo numa boa surpresa. Porémfelicidadecomo profundo deleite do espíritosó na intimidade amorosa, na oração sem imagens e palavras, na contemplação do belo, no acolhimento do ser queridona entrega ao mistério, na eternização subjetiva de um momento, na poesia de um toqueum gesto, uma palavra que traz em si plenitude. Ausência de desejos; tão só deixar-se sorver pelo esplendor de uma paz que ora vem como brisa suave, ora sopra como vento forte e assustador.” 
(Frei Betto)



Pe. Demetrius dos Santos Silva



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

3. Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Leitura da Palavra

"Quando recebi as tuas palavras, eu as devorava. A tua palavra era festa e alegria para o meu coração, porque eu levava o teu nome, ó Senhor, Deus dos exércitos.” (Jr 15,16)

No caminho de Emaús (Lc 24,13-35), Jesus se aproxima dos discípulos e lhes explica as Escrituras. 

Todo processo de Leitura Orante deve iniciar pelos Evangelhos, pois Jesus é o verdadeiro intérprete da Palavra de Deus. 

Vale a pena começarmos pelos Evangelhos para que Jesus nos introduza no mundo da Bíblia. É o Novo testamento que ilumina o Antigo Testamento, não o contrário. Em pouco tempo o Antigo Testamento nos será familiar.  

Antes de iniciar a Leitura Orante já devemos estar com o texto bíblico escolhido. No início não usaremos um texto muito longo.
  • Agora, devemos ler o texto inteiro com bastante atenção.
  • Após a leitura, devemos fechar nossos olhos e tentar recontar o texto para nós mesmos. Caso falte alguma parte do texto, devemos reler o texto e voltar a recontar.
  • Memorizado o texto, devemos reler calmamente, anotando, sublinhando os aspectos principais do texto que é a Palavra de Deus. Prestar atenção para a voz de Deus. 
  • Perceber as personagens do texto, o papel de cada uma.. Notar o ambiente, a época, a linguagem, as ações e reações, a poesia, etc.

É preciso deixar o texto falar por si mesmo. A grande pergunta é: “O que o texto me diz”? 

Lembre-se: o texto bíblico é a Palavra de Deus na história do povo. A Bíblia nasceu no coração de Deus e no coração do povo. Por isso precisamos respeitar o texto. Preciso ter consciência de minha pobreza e silenciar o meu coração para que a Bíblia fale por si mesma. Devo deixar o texto falar e na humildade e no silêncio lutar para não levar o texto a dizer aquilo que eu quero ouvir. 

Importante: ao ler o texto bíblico, o texto bíblico também nos lê. Tua Bíblia não é tua, mas é do povo de Deus. Você pode grifar, sublinhar, anotar... Tua Bíblia, com as tuas anotações continua a crescer, pois Deus fala em ti...

Marque com uma interrogação(?) palavras ou frases difíceis e depois da oração procure o significado. Marque com uma exclamação (!) o que é principal. Marque com (*) os apelos da voz de Deus.



Padre Demetrius Silva

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

2. Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Invocar o Espírito Santo

Disse Jesus: “O Espírito da Verdade manifestará a minha glória, porque ele vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês. Tudo o que pertence ao Pai, é meu também. Por isso é que eu disse: o Espírito vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês.” (Jo 16,14-15)
           
             O Espírito Santo é o Mestre da oração. É o Espírito Santo que mantém entre nós a presença de Jesus, caminho que leva ao Pai. Sem o Espírito Santo não há vida. Sem Ele não há oração. 

       É o Espírito Santo quem faz a Igreja interpretar as Escrituras. Em nossa oração, devemos sempre tomar consciência da presença do Espírito Santo, luz de Deus, que ilumina e, com Jesus, nos conduz ao deserto da oração. Invocar o Espírito Santo não é chamá-lo para vir sobre nós, como se Ele não estivesse presente.

  Ao contrário: invocar o Espírito Santo é nos fazer presente diante do Espírito de Deus que, desde o início da Criação, pairava sobre as águas e que o convidamos para habitar nosso coração.

            Nossa oração só será oração pela ação misteriosa do Espírito Santo, e é nEle que ouviremos a voz do Pai pela Palavra de Jesus. Assim, devemos invocar o Espírito Santo para que Ele assuma o comando de nossa Leitura Orante da Bíblia e nos revele o que Deus nos fala. 

             Cantar uma música do Espírito Santo, rezar o “Vinde Espírito Santo” é a abertura total à presença do Semeador da Palavra que lança sua semente de amor e vida em nosso coração. Quando rezamos assim, é o Espírito quem conduzirá nossa oração.

           Uma lembrança: o Espírito Santo é luz para a comunidade. Devemos rezar sempre unidos aos irmãos, mesmo estando “sozinhos”. Por mais pessoal que seja a oração, somos membro de uma comunidade de fé que tem uma longa história: a História da Salvação. 

             O Espírito Santo ilumina toda a Igreja. Ele ilumina nossa oração, nossa Leitura Orante da Palavra, nossa vida. Invocar o Espírito Santo, mas sem perder a dimensão comunitária.




Pe. Demetrius Silva



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

1. Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Ambientação

Mas você, quando rezar, vá para o seu quarto, feche a porta e reze ao seu Pai, que não pode ser visto. E o seu Pai, que vê o que você faz em segredo, lhe dará a recompensa. (Mt 6,6)

1. Preparar o Ambiente:

            Toda oração deve ser preparada com amor. A oração é a conversa, o diálogo com a pessoa mais importante. Devemos, numa atitude de amor, preparar a terra para receber a semente. Em oração, temos de preparar o ambiente exterior: sala, quarto, altar, canto, etc., e também preparar o coração: sentimentos, silêncio interior, transparência, etc...

a) Preparar o ambiente exterior

            Aprendi com os jovens que o ambiente exterior deve refletir nosso amor. Por isso, a vela acesa é sinal de que “Deus está presente”. Uma almofada e, sobre esta, a Bíblia é a acolhida da Palavra em nosso coração. O perfume ou incenso nos recorda o suave e gostoso odor de Cristo em nossa vida que, pelo Espírito Santo, invade nossas narinas e enche nossos pulmões de vida. Uma simples flor é sinal de amor e presença de toda a Criação em nosso altar pessoal. Outros elementos são acrescentados de acordo com a criatividade. Uma face amorosa de Jesus Mestre toca o coração através de seu olhar de ternura. Dois gravetos entrelaçados nos recordam a Doação total de Jesus na Cruz. Meu quarto, meu cantinho se tornou numa verdadeira capela de louvor...

b) Preparar o ambiente interior

            A oração é diálogo interior com Deus. O Mestre Jesus nos ensinou a rezar com o coração. Ele ia para a montanha e passava horas em diálogo com o Pai. Ele carregava em seu coração as Escrituras e meditava sobre elas com muito amor. O coração do Mestre era e é um ambiente preparado para a conversa com Deus. Jesus mais escutava do que falava...

            Aprendi com os idosos que é preciso fazer silêncio para escutar a voz de Deus, a brisa leve soprando com ternura. Assim, em nossa oração precisamos silenciar nosso coração. Um pequeno e suave fundo musical entra em contato com nosso interior e abre o caminho para a passagem da brisa leva. Um pequeno refrão, repetido algumas vezes, é sinal de nossa abertura para a voz do Senhor. Algumas respirações suaves e profundas preparam nosso espírito para acolher o Espírito Santo, Mestre de oração. Sentar-se confortavelmente imaginando-se na presença do Pai, no colo de Jesus Mestre, imaginar o rosto de Cristo, nos insere no Mistério Divino. Desliga-se o fundo musical, cessam-se as preocupações, silencia-se o coração, acalma-se a mente. Agora somos terra boa onde a semente da Palavra pode brotar, crescer e dar frutos: cem, sessenta, trinta por um. Tomar consciência das preocupações, inquietações, pecados, pequenez...

            Quando silencio o meu coração torno-me transparente diante de Deus, apresento-me como sou verdadeiramente, pois a “mentira é inimiga do silêncio!” Sendo quem sou, as Escrituras encontram no meu silêncio uma verdadeira caixa de ressonância onde ecoará o amor de Deus. O silêncio do Coração é como a caixa do violão, onde o dedilhar das Escrituras faz soar a bela melodia do Amor de Deus.


Padre Demetrius Silva

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Rezando como discípulo(a) de Jesus Mestre - Introdução

Disse Jesus: "Não foram vocês que me escolheram; pelo contrário, fui eu que os escolhi para que vão e dêem fruto e que esse fruto não se perca. Isso a fim de que o Pai lhes dê tudo o que pedirem em meu nome." (Jo 15,16)

            Em minha vida de padre somada aos anos de seminário e à experiência da vida religiosa franciscana, pude experimentar muitas mudanças na Igreja.

         O que mais tem despertado a minha atenção nos últimos anos é o cansaço e o desânimo que atingiram os cristãos, principalmente os agentes de pastoral. Muita gente está desanimada com a Igreja e já não mais confia em seus pastores. São tantas as reclamações: padres burgueses , insensíveis e autoritários; bispos vivendo como príncipes e distantes dos pobres; comunidades individualistas e fechadas; falta de acolhimento nas igrejas; mulheres desvalorizadas na tradição católica; pedofilia; amor ao dinheiro; etc. Esses são apenas sintomas de uma realidade muita clara: estamos nos distanciando do Mestre e de seu Evangelho.

            Vendo pregações nas TVs católicas, ouvindo sermões nas rádios, lendo artigos em jornais, sites e revistas, participando de reuniões, cursos e toda sorte de atividade na Igreja, começo a perceber que o Jesus que pregamos é diferente do Jesus que o Novo Testamento nos apresenta. Pregamos um Jesus por vezes duro, distante da vida, rei, insensível, legalista, misógeno, etc... No entanto, o Novo Testamento nos revela Jesus profundamente livre, libertador, solidário, empático, defensor e promotor das mulheres, simples, pobre, humilde, apaixonado pela vida, etc.

            Nos últimos tempos, o Papa Francisco tem sido a grande voz profética no mundo e na Igreja. Seu amor por Jesus Mestre tem feito a Igreja redescobrir o Evangelho e o mundo redescobrir a esperança. Ele tem convocado a todos para o diálogo amoroso com Jesus Mestre através da leitura da Bíblia. 

            Por isso, precisamos redescobrir o Jesus do Novo Testamento. Ter contato com a Palavra de Deus é essencial.  Precisamos nos colocar na condição de Discípulos e Discípulas de Jesus e dialogar com o Mestre através de sua Palavra de Amor. A Leitura Orante da Bíblia (Lectio Divina) é um instrumento nessa tarefa de redescoberta da Pessoa de Jesus.

            Hoje, fala-se muito em leitura orante. São diversas as publicações sobre o assunto. Aqui apresento minha experiência de oração discipular em oito passos:

1. Preparar o ambiente
            
2. Invocar o Espírito Santo

3. Leitura da Palavra

4. Meditação

5. Oração

6. Contemplação

7. Compromisso

8. Despedida 

            É Jesus nosso Mestre de oração. Ele conduzirá nossa experiência de contato com sua Palavra. Ele se mostrará a nós do jeito que Ele é: caminho verdade e vida.

Por fim, faço minhas as palavras poéticas e proféticas de Dostoievski ao regressar da casa dos mortos, sua prisão com trabalhos forçados na Sibéria. Dostoievski afirmou: “Às vezes Deus me envia instantes de paz; nestes instantes, amo e sinto que sou amado; foi num desses momentos que compus para mim mesmo um credo, onde tudo é claro e sagrado. Este credo é muito simples. Ei-lo: creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha nele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade”.
            
Frei Demetrius Silva