quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O ódio fantasiado de Amor

Disse Jesus: “Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão! Assim também vocês: por fora, parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça.  (Mt 23,27-28)

Quando eu era seminarista e estava no penúltimo ano de seminário, eu dava um curso de Bíblia numa paróquia em Campinas. Naquele dia eu tinha trabalhado o Evangelho de São João. Falávamos sobre o mandamento novo: “O meu mandamento é este: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos. Sereis meus amigos se fizerdes o que vos mando. (Jo 15,12-14)
           
Falei bonito, toquei os corações, despertei neles o interesse pela Palavra. Traduzi a necessidade de amarmos os mais pobres de verdade e não em teoria. Fui aplaudido quando, ao responder uma pergunta, disse que “no coração do discípulo de Jesus, não há espaço para o ódio!”

Fui embora todo feliz com a aula onde aludi sobre os mistérios do amor. No ponto de ônibus um adolescente de rua, com uma faca, roubou meu relógio (presente de uma comunidade de Hortolândia). Ele saiu correndo, mas dois homens o derrubaram e começaram a chutá-lo. Em nenhum momento eu pensei em proteger o adolescente daquelas agressões. Um sentimento de ódio profundo habitava meu coração, de tal forma que eu mesmo queria agredi-lo. Um lobo feroz habitava dentro de mim. Senti-me como Saulo, guardando os pertences daqueles que apedrejavam Estevão. Saulo concordava com o apedrejamento. (Cf. At 8,1) Foram os policiais que protegeram o adolescente. Eu era quem devia protegê-lo!!!

Esse episódio de minha vida marcou profundamente a minha espiritualidade. De lá para cá, luto todos os dias para conter o lobo feroz dentro de mim. Busco o amor de Deus para conter o ódio que habita meu coração. Percebo, desde então, os meus preconceitos e pecados. Agora vivo a batalha contra esse ódio fantasiado de amor. Tomei consciência de que não tenho força alguma para combater este lado tão sombrio. Descobri que somente Jesus Mestre pode conter essa força de morte dentro de minha alma. Jesus Mestre, vencedor de todo o mal, é a “vacina” contra o ódio disfarçado em amor.

Lembrei-me dessa experiência, agora sempre presente em minha vida, observando as atitudes e opiniões dos irmãos e irmãs nas redes sociais nestes últimos dias, principalmente o facebook. Com as eleições presidenciais os ânimos se alteraram. A polarização entre PSDB e PT gerou um índice de adesão a esta campanha eleitoral que ultrapassou quaisquer outras eleições já realizadas em nosso país. Um desejo de mudança acompanhado de intolerância ser firmou nos dois lados em disputa.

Vi pessoas boas, calmas, religiosas, amorosas se transformarem em guerreiros furiosos que despejavam seu caldeirão de ódio em quem pensava diferente.

Vi pessoas supostamente cultas, professores, tecnólogos, profissionais da saúde, ministros de Igreja, agentes de pastoral e até padres revelando preconceitos aos nordestinos e nortistas por causa do resultados das eleições. Houve também preconceito contra mineiros e paulistas...

Um exemplo de ódio. Isso foi escrito por uma pessoa de bem!
Fui chamado de “padre cabeça chata” e me falaram que eu devia sair de minha paróquia e voltar para a terra de meus pais. Me chamaram de desocupado e disseram que meu bispo devia me dar tarefas para me ocupar. É claro que eu também respondi, mas sem ofender, porém fui duro.

Em tudo isso está aquele velho lobo feroz, pronto para se manifestar quando tiver a primeira oportunidade. As eleições foram a ocasião perfeita para que o ódio, fantasiado de amor, falasse mais alto.

Gente de bem, gente de família, gente transformada em fera, cheia de ódio e preconceito, escrevendo nas redes sociais as idéias mais odiosas possíveis. Gente que fala em nome de Jesus...

Sinto uma grande vergonha daquele dia do assalto. Espero que quem destilou seu ódio possa também um dia se envergonhar de seus preconceitos. Mas, tenho uma certeza: não tenho força contra esse ódio disfarçado de amor. Só Cristo em mim pode vencer tamanho ódio. Ou nos aproximamos de Cristo ou o ódio vencerá.



Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, no mais profundo de minha alma existe um lobo feroz cheio de ódio e rancor pronto para sair e atacar quando as adversidades da vida acontecerem. Não tenho força alguma, Senhor, para domar tamanha violência. Tenho a certeza que vós podeis dominá-la. Por isso vos peço, ó Mestre: penetrai até a medula de meu espírito e, com Vossa Palavra de vida e de amor, controlai a violência e o desequilíbrio que imperam em meu coração. Que Vosso Amor e Vossa Ternura sustentem todo o meu ser. Assim seja.


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