segunda-feira, 21 de julho de 2014

Abandonar o barco

“A partir desse momento, muitos discípulos voltaram atrás, e não andavam mais com Jesus. Então Jesus disse aos Doze: «Vocês também querem ir embora?» Simão Pedro respondeu: «A quem iremos, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna.  (Jo 6,66-68)


Certa vez fui nomeado pároco de uma paróquia. Era padre novo. Estava cheio das esperanças. Numa das primeiras reuniões, uma pessoa chegou e jogou as chaves da igreja em minha mesa e disse: “Esperei o senhor chegar. Aqui estão as chaves da comunidade. Estou saindo da Igreja!”. Que começo turbulento!

Lembro-me que fiquei muito triste e pensei em desistir. Mas, eu tinha uma certeza: Deus estava comigo e eu tinha o Evangelho de Jesus. Foi Jesus no Evangelho quem nos deu força: a mim e a paróquia. 

Depois, várias pessoas foram abandonando o barco. Um ministro que era um dos principais coordenadores da paróquia “virou” adventista. Aparentava que estava bem. Nunca me procurou para falar sobre seus problemas, partilhar sua vida. Até hoje eu não sei o que aconteceu. Ele nunca me falou, simplesmente foi embora sem dar satisfação.

Mas tínhamos o Evangelho e muita gente nova apareceu. E também muitos problemas. Nós percebemos que Deus estava conosco e vivemos um florescimento em nossa paróquia. Mas ainda nos doía o coração por ver irmãos e irmãs abandonando o barco. Sempre me perguntei o porquê de abandonar o barco. Lembrei-me de uma história: 

“Certa vez, um cão de caça saiu para a floresta para caçar. Derrepente ele começou a correr e latir.  Ao passar pelas brechas da floresta, alguns outros cães de caça viram ele correndo e latindo. Então começaram a correr também, atrás do primeiro cachorro. Mais à frente, outros cães fizeram a mesma coisa. Logo, mais de cem cães estavam correndo e latindo pela floresta. Em dado momento, um dos últimos cães disse ao outro: “Vem cá... Porque estamos correndo e latindo pela floresta?” E o outro cão disse: “Não sei... só sei que devo latir e correr, pois todos estão fazendo isso”. Então o cão disse: “Bah... Vou parar... Não tem sentido ficar correndo e latindo à toa...” Então foram parando um a um todos os cães. E no final da corrida restou apenas o primeiro cão que continuava a correr e latir. No fim, este cão pegou uma grande lebre. Foi grande o seu banquete!”

Apenas o cão que viu a lebre permaneceu até o fim. Assim também é com os discípulos e discípulas de Jesus. Apenas aqueles que experimentaram o sagrado serão capazes de continuar até o fim. Apenas os que cultivaram a intimidade com o Mestre Jesus é que vão atingir a meta.

Creio que nós abandonamos o barco assim: 

- Abandona-se o barco quando não nos sentimos chamados por Deus. Seguir o caminho de Cristo implica na certeza do chamado. Só há certeza do chamado quando cuidamos de nossa vida espiritual, sobretudo na atenção carinhosa ao Santo Evangelho.
- Abandona-se o barco quando, extremamente cansados, não cuidamos de repor as energias no “colo” de Jesus, isto é, na vida de oração e contemplação das coisas do Senhor. 
- Abandona-se o barco quando o meu serviço na comunidade não é feito para Deus, mas para mim que tiro proveito da situação buscando reconhecimento, bem-estar, alívio psicológico, amizades, curas, etc., isto é, quando coloco Deus em segundo plano e todo o resto tenho por prioridade.
- Abandona-se o barco quando estaciono meu espírito e não busco crescimento espiritual, não buscando aprimoramento nas coisas que faço e leio.
- Abandona-se o barco quando não sou honesto comigo mesmo e oculto a minha realidade na mentira e na omissão!

Dos discípulos de Jesus, apenas os que experimentaram seu amor e cultivaram a intimidade com Ele é que permaneceram até o fim e perceberam que o fim era apenas o começo. 

Todo voluntariado é bom. Fazer o bem faz bem! Mas quem quer seguir Jesus na Igreja e na comunidade, precisa ter consciência que seu serviço é para Deus, e mais ninguém. Toda boa ação em Deus é recompensada pela gratuidade de seu amor. Antes de dizer “sim” precisamos medir até onde queremos chegar. 


Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, sois o destino de minha vida. Quero cultivar o vosso amor no jardim de meu espírito. Regai com vossa ternura a minha existência. Que meu serviço seja uma oferenda agradável a Vós e que minhas obras seja para o vosso louvor. Assim seja!

Pe. Demetrius Silva




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