terça-feira, 22 de julho de 2014

Como o Beija-Flor

 Jesus ficou de pé e gritou: «Se alguém tem sede, venha a mim, e aquele que acredita em mim, beba. É como diz a Escritura: ‘Do seu seio jorrarão rios de água viva’.» (Jo 7,37-38)

Hoje encontramos um beija-flor na Igreja. Pequenino. Também é chamado de colibri. Eu conhecia pelo nome de cuitelinho. Lembrei-me da música interpretada por Pena Branca e Xavantinho.

Admirávamos o pequenino beija-flor pousado numa linda orquídea ornando a nossa Mesa da Palavra. Tiramos algumas fotos encantados por sua beleza. Depois percebemos que nosso pequenino amigo estava muito fraco, quase morrendo, pois ficara preso na igreja e passara a noite procurando a saída sem encontrar. O cuitelinho consumiu toda a sua energia, e agora já não tinha mais força para voar e procurar alimento.

Uma amiga resolveu pegá-lo com as mãos para salvá-lo de seu triste destino. Ele era delicado, muito pequeno, lindo e corria risco de morte. Eu preparei um soro: água e açúcar orgânico. Demos ao bichinho. Seu biquinho revelava em pequenina língua que aos poucos foi bebendo a solução adocicada. 

Ele tem um metabolismo acelerado que assimila rapidamente a solução e a transforma em energia. Rapidamente percebemos sua melhora. Ele sabia que cuidávamos dele e que lhe queríamos bem! Em poucos minutos o cuitelinho alçou vôo como que nos agradecendo pela ajuda.

Hoje, nós cristãos enfrentamos situação semelhante. Recebemos o batismo quando pequeninos e somos educados numa fé infantil que já não responde aos problemas de nosso tempo. Crescemos em estatura, mas não no conhecimento das coisas de Deus. Adultos, nos vemos embrenhados nas trevas da dúvida e buscamos respostas prontas para  problemas que exigem muita contemplação, oração e estudo. Chega o momento em que, nas trevas, perdemos nossa energia de viver: a fé. 

Sem Cristo, caímos desfalecidos e, exaustos, já não temos motivação para viver. Ficamos na igreja como o colibri na orquídea: enfeite, ornamento, mas sem força para viver. É nessa hora que precisamos da ajuda de gente que gratuitamente nos dê a doçura de Cristo. Gente que se esforça por nos alimentar na fé dando-nos o néctar da Palavra de Deus e sua interpretação. E assim, alimentados pela doçura da Palavra que é Cristo, podemos alçar o vôo que só os verdadeiros discípulos e discípulas podem realizar. Isto é a verdadeira liberdade.

Vejo que os bons padres e pastores são aqueles alimentam o povo com a doçura da Palavra de Deus e sua interpretação. Não há como enfrentarmos os desafios do mundo atual sem a espiritualidade alicerçada na Palavra de Jesus Mestre. Mais do que nunca padres e pastores são necessários para fazer dos cristãos gente adulta na fé. Padres e pastores apaixonados pelo Mestre e sua Palavra... Só isto basta!

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, sou como o colibri sedento por vossa doçura. Alimentai-me com o néctar de vossa Palavra e, quando eu estiver desfalecido, sustentai-me com vossa ternura. Assim seja!

Pe. Demetrius Silva

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Abandonar o barco

“A partir desse momento, muitos discípulos voltaram atrás, e não andavam mais com Jesus. Então Jesus disse aos Doze: «Vocês também querem ir embora?» Simão Pedro respondeu: «A quem iremos, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna.  (Jo 6,66-68)


Certa vez fui nomeado pároco de uma paróquia. Era padre novo. Estava cheio das esperanças. Numa das primeiras reuniões, uma pessoa chegou e jogou as chaves da igreja em minha mesa e disse: “Esperei o senhor chegar. Aqui estão as chaves da comunidade. Estou saindo da Igreja!”. Que começo turbulento!

Lembro-me que fiquei muito triste e pensei em desistir. Mas, eu tinha uma certeza: Deus estava comigo e eu tinha o Evangelho de Jesus. Foi Jesus no Evangelho quem nos deu força: a mim e a paróquia. 

Depois, várias pessoas foram abandonando o barco. Um ministro que era um dos principais coordenadores da paróquia “virou” adventista. Aparentava que estava bem. Nunca me procurou para falar sobre seus problemas, partilhar sua vida. Até hoje eu não sei o que aconteceu. Ele nunca me falou, simplesmente foi embora sem dar satisfação.

Mas tínhamos o Evangelho e muita gente nova apareceu. E também muitos problemas. Nós percebemos que Deus estava conosco e vivemos um florescimento em nossa paróquia. Mas ainda nos doía o coração por ver irmãos e irmãs abandonando o barco. Sempre me perguntei o porquê de abandonar o barco. Lembrei-me de uma história: 

“Certa vez, um cão de caça saiu para a floresta para caçar. Derrepente ele começou a correr e latir.  Ao passar pelas brechas da floresta, alguns outros cães de caça viram ele correndo e latindo. Então começaram a correr também, atrás do primeiro cachorro. Mais à frente, outros cães fizeram a mesma coisa. Logo, mais de cem cães estavam correndo e latindo pela floresta. Em dado momento, um dos últimos cães disse ao outro: “Vem cá... Porque estamos correndo e latindo pela floresta?” E o outro cão disse: “Não sei... só sei que devo latir e correr, pois todos estão fazendo isso”. Então o cão disse: “Bah... Vou parar... Não tem sentido ficar correndo e latindo à toa...” Então foram parando um a um todos os cães. E no final da corrida restou apenas o primeiro cão que continuava a correr e latir. No fim, este cão pegou uma grande lebre. Foi grande o seu banquete!”

Apenas o cão que viu a lebre permaneceu até o fim. Assim também é com os discípulos e discípulas de Jesus. Apenas aqueles que experimentaram o sagrado serão capazes de continuar até o fim. Apenas os que cultivaram a intimidade com o Mestre Jesus é que vão atingir a meta.

Creio que nós abandonamos o barco assim: 

- Abandona-se o barco quando não nos sentimos chamados por Deus. Seguir o caminho de Cristo implica na certeza do chamado. Só há certeza do chamado quando cuidamos de nossa vida espiritual, sobretudo na atenção carinhosa ao Santo Evangelho.
- Abandona-se o barco quando, extremamente cansados, não cuidamos de repor as energias no “colo” de Jesus, isto é, na vida de oração e contemplação das coisas do Senhor. 
- Abandona-se o barco quando o meu serviço na comunidade não é feito para Deus, mas para mim que tiro proveito da situação buscando reconhecimento, bem-estar, alívio psicológico, amizades, curas, etc., isto é, quando coloco Deus em segundo plano e todo o resto tenho por prioridade.
- Abandona-se o barco quando estaciono meu espírito e não busco crescimento espiritual, não buscando aprimoramento nas coisas que faço e leio.
- Abandona-se o barco quando não sou honesto comigo mesmo e oculto a minha realidade na mentira e na omissão!

Dos discípulos de Jesus, apenas os que experimentaram seu amor e cultivaram a intimidade com Ele é que permaneceram até o fim e perceberam que o fim era apenas o começo. 

Todo voluntariado é bom. Fazer o bem faz bem! Mas quem quer seguir Jesus na Igreja e na comunidade, precisa ter consciência que seu serviço é para Deus, e mais ninguém. Toda boa ação em Deus é recompensada pela gratuidade de seu amor. Antes de dizer “sim” precisamos medir até onde queremos chegar. 


Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, sois o destino de minha vida. Quero cultivar o vosso amor no jardim de meu espírito. Regai com vossa ternura a minha existência. Que meu serviço seja uma oferenda agradável a Vós e que minhas obras seja para o vosso louvor. Assim seja!

Pe. Demetrius Silva




segunda-feira, 7 de julho de 2014

Verdade X Covardia

Dom Helder Câmara - Profeta da Paz e da Coragem
Disse Jesus: “Não tenham medo deles, pois não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não existe nada de oculto que não venha a ser conhecido. O que digo a vocês na escuridão, repitam à luz do dia, e o que vocês escutam em segredo, proclamem sobre os telhados.” (Mt 10,26-27)

Eu recebi uma “carta” sem remetente. O envelope estava escrito à mão, com letras feias indicando pouca habilidade com a escrita. Não costumo abrir cartas sem remetente, pois geralmente trazem porcarias. O envelope estava “gordinho”, parecia que tinha um pequeno livro. Por curiosidade, quebrei o meu costume de não abrir cartas sem remetente, imaginando que dessa vez teria algo de bom. Mas, infelizmente parece que essa regra não tem excessão, mais uma porcaria.

No envelope tinha um pequeno livreto que na capa estava escrito: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. (Jo 8,32) Era um livreto falando mal de minha Igreja. Aquele papo de sempre: adoração de imagens, papa que trabalha para o capeta, padres que não casam, santos que não estão no céu, católicos que vão para o inferno, Maria mãe de Jesus que tinha um monte de filhos, etc. 

Um livrinho por sinal muito mal escrito com muitos erros ortográficos e com falhas na concordância verbal e na regência nominal. Confesso que fique muito aborrecido em receber esse tipo de literatura. Estragou o meu dia.

No fim do dia, ainda aborrecido, passei a refletir melhor sobre o livrinho e sobre quem o enviou a mim. No começo do livro estava escrito: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. (Jo 8,32) Essa frase de Jesus sempre tocou o meu coração. Passei a me perguntar porque uma pessoa com a intenção de falar a verdade a alguém esconderia sua identidade? Quando os soldados procuravam prender Jesus, “Ele saiu e perguntou a eles: Quem é que vocês estão procurando? Eles responderam: Jesus de Nazaré. Jesus disse: Sou eu.” (Jo 18,4-5). Jesus não oculta sua identidade, pois sua mensagem e sua ação correspondem à vontade de Deus Pai.

Algumas pessoas querem anunciar sua mensagem mas se escondem para não ter oposição nem respostas. Há pessoas que querem anunciar seu “evangelho” mas, dominados pela covardia, se escondem no anonimato. Eu não acredito nesse “evangelho da covardia” onde a pessoa que falar sua “verdade”, mas não quer revelar sua face, sua identidade. Eu não acredito naqueles que têm vergonha do Evangelho. A verdade que liberta não pode se esconder atrás dessa gente covarde que tem vergonha de mostrar sua cara e de assumir seus erros. O Espirito Santo dá coragem para testemunhar.

Eu não tenho vergonha daquilo que sou! Sou Cristão-católico-apostólico-romano, presbítero da Igreja, franciscano-pecador, santista, filho de alagoanos, biblista e teimoso como uma mula. Creio na Trindade, em Nossa Senhora, nos santos e santas, no Papa, na Igreja e em meus irmãos e irmãs. Se eu mando uma carta, lá está o meu nome. Sou criticado e apoiado por aquilo que escrevo, falo e penso. Não há porque ter medo! O Evangelho nos ilumina!!! 

Não há espaço para covardia no Evangelho. Disse Jesus Mestre:  “Portanto, todo aquele que der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante do meu Pai que está no céu. Aquele, porém, que me renegar diante dos homens, eu também o renegarei diante do meu Pai que está no céu.” (Mt 10,32-33)

Enfim, não posso dar crédito aos covardes e o livrinho já se encontra no lixo. Não tem como aproveitá-lo, senão na reciclagem. Quão bom seria se pudéssemos reciclar os covardes que querem anunciar o Evangelho sem os princípios e a coragem de Jesus! Mas, isso é impossível para nós. Não para Deus!!! E meu dia ficou bom novamente!


Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, sois a coragem e a ternura do amor. Ajudai-me a anunciar vossa Palavra com coragem e honestidade. Afastai-me da covardia que faz com que eu não assuma quem eu sou. Que eu não pertença às trevas. Assim seja.



Pe. Demetrius dos Santos Silva

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Minha casa é Igreja

Jesus virou-se para trás, e vendo que o seguiam, perguntou: "O que é que vocês estão procurando?" Eles disseram: "Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?"
Jesus respondeu: "Venham, e vocês verão." Então eles foram e viram onde Jesus morava. E começaram a viver com ele naquele mesmo dia. Eram mais ou menos quatro horas da tarde. (Jo 1,38-39)

Uma grande novidade antiga que aprendemos com o Concílio Vaticano II é que a Igreja é Povo de Deus. Se a igreja é o Povo de Deus, nós somos Igreja e a Igreja somo nós.  Sim, eu sou Igreja junto aos meus irmãos e irmãs. Sou igreja e como igreja devo fazer de minha casa uma igreja. Não uma nova igreja separada da verdadeira Igreja de Cristo, mas uma Igreja sempre antiga e sempre nova em sintonia e comunhão com a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Eu sou membro de Cristo.  Eu sou extensão de seu corpo e assim minha casa deve ser sua casa.

No tempo de Jesus, os discípulos eram acolhidos na casa dos "rabis" e nesta casa aprendiam a ser mestres. Mas com Jesus é diferente. Jesus é um mestre itinerante e sem casa: "As raposas têm tocas, os pássaros têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça". (Lc 9,58) Assim, os discípulos que seguiram Jesus foram ver onde Ele morava e encontraram o mundo como sua casa e suas próprias casas como a casa dEle.  Sim, creio Jesus nos leva à nossa própria casa e nos diz: "essa é a minha casa".

Minha casa deve ser uma extensão da Igreja. Nas décadas de 70 e 80 tínhamos as novenas e círculos bíblicos nas casas. Era um movimento muito forte onde sentíamos que nossa casa era Igreja. Os laços de amizade eram fortes e um sentimento de compromisso era evidente. 

Hoje é preciso repensar o papel de nossa casa. Infelizmente somos nós os senhores e senhoras da casa. Jesus devia ser o dono de nossa casa, pois Ele é o Mestre. Em minha casa Ele deve reinar. Eu devo estar a serviço dEle em meu lar e devo fazer de minha casa uma extensão de sua casa, de modo que não valha as minhas regras mas as dEle. 

Como estamos fazendo de nossa casa a casa do Mestre? É Ele quem reina em meu lar? As regras de minha casa são as minhas ou as de Jesus? As decisões que eu tomo em casa são refletidas com o Mestre?

Se sou discípulo de Jesus Mestre, minha vida está ligada à Ele de tal forma que, onde eu estiver, sempre estarei em sua casa. Assim, mesmos nas piores situações Ele sempre estará comigo e eu sempre terei sua presença e seu apoio. Minha casa não pode mais continuar apenas sob minhas ideias,  mas sob as ideias de Jesus para que ela seja Igreja. A casa que se abre para Cristo é feliz. Mas a casa que é de Cristo gera felicidade.

Oração: Senhor Jesus Cristo,  Mestre de mim,  levaste-me à vosso casa e quando percebi era a minha própria casa.  Fazei de meu lar a extensão de vossa Igreja e que eu seja humilde e permita que meu ego não atrapalhe as regras propostas por Vós.  Adentrai em minha casa e transformai minha vida ao vosso serviço.  Assim seja!


Posted via Blogaway