quinta-feira, 29 de maio de 2014

Gritos implícitos

Disse o Senhor: Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. (Ex 3,7)

Nesses dias eu lembrei de um professor, quando estudei no IPJ (Instituto de Pastoral da Juventude) em Porto Alegre, no curso de Especialização em Juventude. Era o Pe. Hilário Dick, um Jesuíta apaixonado pela juventude, que dedicou a maior parte de sua vida ao apostolado juvenil. Homem sábio e provocador. Gosta de um bom mate e um bom churrasco. 

Aprendi muitas coisas com esse Padre. Ele nos dizia que precisávamos escutar os gritos da juventude, pois Deus escutou os gritos dos hebreus no Egito. Pe. Hilário dizia que a juventude apresenta dois tipos de gritos: um explícito e outro implícito. Os gritos evidentes são os explícitos. Mas o Padre insistia que o bom assessor de jovens era aquele que escutava os gritos implícitos. Saber ler os gritos nas entrelinhas é fundamental ao se trabalhar com a juventude.

O exemplo dado pelo Padre sobre os jovens pode ser aplicado a qualquer pessoa, não importando a idade, nem o gênero. Todos nós damos gritos explícitos e implícitos diante de situações que nos incomodam. E saber ouvir esses gritos é fundamental na ação pastoral.

Hoje eu vejo muita gente na Igreja trabalhando de modo forçado e empurrando a vivência pastoral com a barriga. Muita gente azeda e descontente com os rumos de sua própria vida e da vida de seu grupo ou comunidade. Algumas dessas pessoas (mais corajosas) manifestam seu grito explicitamente dizendo o que pensa e sente para mim. Outras muitas não dizem claramente o que pensam e sentem, e é aí onde precisamos ouvir os gritos implícitos e perceber que as pessoas estão dando sinais de que as coisas não vão bem.

Como Pastor, percebo que eu preciso ouvir mais os gritos implícitos de quem trabalha comigo. Preciso notar o descontentamento dos meus e oferecer ajuda espiritual às ovelhas feridas. Devo oferecer o Evangelho. Não há nada mais saudável que o Evangelho do amor. 

Seria bom cada um tomar coragem e falar às claras com seu pároco sobre seus problemas, sobre o que pensa e sente. E seria bom que nós padres percebêssemos os sofrimentos manifestados nas entrelinhas da vida de cada agente de pastoral e de cada ovelha do rebanho.

Penso que ainda nos falta honestidade e franqueza para vivermos o Evangelho na Igreja. Escondemos muito o que pensamos e ouvimos pouco o que Jesus tem a nos dizer. Se quisermos uma Igreja mais viva e evangélica, precisamos ser mais honestos conosco e com os outros e assumirmos verdadeiramente quem somos, o que pensamos e o que sentimos. E devemos dar chance ao nosso coração para abandonar tudo aquilo que não coincide com o jeito de ser de Jesus Mestre.

Temos a oportunidade de ser uma Igreja ainda mais evangélica. Mas, para isso precisamos manifestar o que somos, pensamos e sentimos, para abraçar quem Jesus é, pensa e sente. Precisamos gritar mais explicitamente e ouvir mais implicitamente. A decisão é nossa.


Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim. Vós me conheceis plenamente e escutais meus gritos e gemidos inaudíveis. Fazei que eu possa perceber o que em mim não está de acordo convosco e possa, em Vós, transformar em algo melhor. Assim seja.


terça-feira, 27 de maio de 2014

Prefiro seguir Jesus

Jesus chamou de novo a multidão para perto dele e disse: 
Escutem todos e compreendam: o que vem de fora e entra numa pessoa, 
não a torna impura; as coisas que saem de dentro da pessoa é que a tornam impura. 
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. (Mc 7,14-16)

Estive numa comunidade para atender confissões durante um encontro de oração. Muita música, louvor, animação e pregações. Certa pregadora orientava os participantes sobre a necessidade de não se contaminar com as coisas do mundo. Ela comentou coisas importantes como não deixar a pornografia entrar no coração, rezar em família, ir à missa, etc. Mas, em determinado momento, ela começou a “profetizar” coisas estranhas à fé em Cristo Jesus. Ela dizia que ali tinha pessoas que estavam impuras porque comeram comidas contaminadas, alimentos que foram oferecidos aos ídolos, e estas comidas traziam a maldição para a pessoas e suas famílias e, assim, deviam participar da missa de cura e libertação e, se necessário, passar por um ritual de exorcismo.

Enquanto a pregadora falava, eu pensava nos ensinamentos de Jesus. Eis: Quando Jesus entrou em casa, longe da multidão, os discípulos lhe perguntaram sobre essa parábola. Jesus disse: «Será que nem vocês entendem?  Vocês não compreendem que nada do que vem de fora e entra numa pessoa pode torná-la impura, porque não entra em seu coração, mas em seu estômago, e vai para a privada?» (Assim Jesus declarava que todos os alimentos eram puros). (Mc 7,17-19)

Ainda temos tantos cristãos e cristãs que vivem como escravos do medo e da ignorância. Gente que ainda crê que comidas, ritos, amuletos, pragas, etc., são capazes entrar nas pessoas e afetá-las espiritualmente de tal forma, que podem desgraçar suas vidas.

É estranho ver esse tipo de pregação na Igreja sabendo o que Jesus Mestre nos ensinou em seu Evangelho. Como que um alimento oferecido a um ídolo qualquer e, comido por mim seguidor de Jesus, pode contaminar minha vida e trazer a maldição a mim?

Ao olhar todo aquele povo acenando sua concordância com o balançar da cabeça, percebia que ali se falava muito de Jesus, mas não se levava em conta o que Ele nos ensinou.

Creio que isso seja um dos principais problemas da Igreja em nosso tempo: “não se crê naquilo que Jesus ensinou!” Esse é o exemplo: Jesus declarou que todos os alimentos são puros, mas os pregadores declaram que há alimentos que são impuros e contaminam. É evidente que alguém está errado: Ou Jesus, ou aquele tipo de pregadores.

Por isso eu tomei uma decisão: prefiro crer naquilo que Jesus ensinou. Assim, tudo aquilo que é pregado eu confrontarei com aquilo que Jesus pregou e ensinou por meio de sua Palavra e de seu exemplo. Quero ser livre e liberto de todo medo idiota pregado por cristãos covardes que ensinam aquilo que Mestre não ensinou. Não acredito que uma coxinha oferecida a qualquer ídolo pode me contaminar e me afastar de meu Mestre e Senhor Jesus Cristo. Deus seria alguém muito fraco se permitisse que comidas fossem capazes de nos contaminar. No máximo podemos ter dor de barriga. E isso por causa de bactérias, não de ídolos.

Crer em Jesus ou crer em idiotas é uma decisão pessoal. Eu escolhi o Mestre. E você?

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim. Vós me ensinastes que nada de fora pode me contaminar, mas somente aquilo que sai de meu coração. Meu coração pode ser fonte de impureza, mas em Vós, meu coração se torna fonte do mais puro amor. Fazei de meu coração instrumento de vosso profundo amor. Assim Seja.




domingo, 25 de maio de 2014

Amor capaz de sacrifícios

Com efeito, diante de Deus nosso Pai nos lembramos sempre da fé ativa, do amor capaz de sacrifícios e da firme esperança que vocês depositam em nosso Senhor Jesus Cristo. (1Ts 1,3)

Vivemos tempos difíceis onde as pessoas procuram as facilidades para reduzir ao máximo os esforços que devemos fazer. Ainda hoje encontramos pessoas que optam por não estudar mesmo sabendo que seu futuro profissional será muito mais difícil e muito menos promissor. Se estudando as coisas já são difíceis, sem estudar se tudo torna muito mais difícil.

Hoje vejo pessoas inventando desculpas para não estudar: “Eu não gosto”, “minha cabeça dói”, “muita gente que não estudou se deu bem na vida!”, “veja fulano, estudou tanto e hoje é ninguém”. Desculpas e mais desculpas.

Estudar exige sacrifícios de quem estuda. Sacrificar o tempo, os passeios, as diversões, o sono, o descanso, o lazer, etc. Quando estudamos muitas vezes somos obrigados a fazer aquilo que não gostamos, mas sabemos que é necessário. Só depois de muito esforço é que somos recompensados, não pelo diploma, mais pelo conhecimento e habilidades adquiridos.

Quando falamos em amor, os sacrifícios são bem maiores do que o estudar. Viver o amor verdadeiro exige uma capacidade de renúncia e sacrifícios extremos. Quem ama e quer ser amado precisa tomar consciência de que as perdas serão constantes e inevitáveis.

Quem namora e quem se casa deve renunciar a vida de solteiro. Aos poucos, os namorados reconfiguram suas vidas de tal maneira que começam a passar grande parte de seu tempo juntos. Passam a estabelecer gostos comuns onde ambos renunciam certos caprichos pessoais para projetar suas vidas em uma única vida. Sacrificam muitas coisas pessoais para se tornarem uma só carne.

Sem este amor capaz de sacrifícios, nenhum casal é capaz de se manter unido por muito tempo. Devo lembrar que Jesus Mestre é o verdadeiro modelo deste amor capaz de sacrifícios. Ele é o amor! É o Mestre de Nazaré quem inspira as mais diversas vocações de amor. Ele, por amor, sacrificou sua própria vida por nós.

Muita gente quer se dedicar ao amor, mas não quer sacrificar seu estilo de vida baseado no conforto e nas comodidades. É impossível, por exemplo, trabalhar na Igreja por amor sem sacrificar seu tempo com reuniões e mais reuniões. Só temos como ser felizes na Igreja se nosso amor for capaz de sacrifícios como o de Jesus Mestre.

Mais do que nunca o mundo precisa de pessoas que são capazes de se sacrificar por amor. Deus nos convida a ser, no mundo, sinal de seu amor. Ele nos dá por modelo o seu próprio Filho Unigênito. Por isso, precisamos sair de nosso mundinho confortável para mergulharmos no oceano da existência humana onde encontramos as crises mais profundas e os medos mais gélidos que nos interpelam a lutar pela vida como Jesus lutou.

A verdadeira felicidade nasce do coração onde o amor é capaz de sacrifícios. Amor como o de Jesus. Sempre!


Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, por amor sacrificastes vossa própria vida para que eu também tivesse vida. Fecundai meu coração e minha mente com este vosso amor para que eu também tenha capacidade de crer e viver um amor semelhante ao vosso, capaz de sacrifícios. Assim seja! 


quinta-feira, 22 de maio de 2014

Espiritualidade na incerteza

 Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. (Jo 15,16)

Certa vez, um homem estava em um navio e este afundou. O naufrágio foi tão rápido que não deu para soltarem os botes salva-vidas. No meio das ondas, ele viu um pedaço de madeira, agarrou-se nele e, com muita dificuldade, conseguiu chegar a uma ilha deserta. Ficou feliz quando encontrou ali água doce, frutas... Assim o homem conseguiu sobreviver. Improvisou um barraco e ali passou a viver. Agradecia diariamente a Deus e olhava com carinho para o pedaço de madeira que o salvara. Passaram-se várias semanas e aquele homem continuava ali, pois não havia jeito de se comunicar com o mundo.
Um dia, ele saiu, como de costume, a procura de comida. Quando chegou, encontrou sua tenda em chamas. O fogo, que ele havia tirado da pedra, alastrou-se e queimava tudo, inclusive o pedaço de madeira que o salvara. O desespero tomou conta daquele homem. Deus me desamparou, pensou ele. Como estava cansado, deitou-se debruço no chão e dormiu.
Horas depois acordou com alguém batendo nas suas costas. Olhou assustado e viu um senhor com uniforme de marinheiro. Perguntou-lhe: “Como o senhor descobriu que eu estava aqui?” O marinheiro respondeu: “Vi fumaça nesta ilha e vim aqui pensando que alguém estava pedindo socorro”.

Muitas vezes, devido às circunstâncias da vida, nos acostumamos a viver uma espiritualidade alicerçada na matéria onde nos contentamos com uma frágil experiência de Deus. "Se temos conforto Deus está conosco!” Se não temos nada, Deus nos abandonou!”

Assim vamos vivendo nossa espiritualidade até o fim de nossa vida. Mas a vida não é uma ciência exata e destino é algo que só encontramos em poesias. A vida é uma caixinha de surpresas e ela nos prega muitas peças. 

A vida, muitas vezes, nos apresenta problemas tão profundos que nos retira todas as nossas seguranças e certezas. Nesses momentos ficamos nus como Adão e Eva no paraíso e não há folha de figueira que possa cobrir a vergonha de nossa existência. Ficamos perplexos com a possibilidade de perdemos tudo aquilo que nos dá sentido e nos situa em nosso mundo.

Quando percebemos que nossa vida pode sair errada nos damos conta que nosso futuro é incerto e que tudo pode acontecer: ruim ou bom, feliz ou triste. Tudo é possível. 

Lembro-me de um amigo que, casado há pouco tempo e recém formado no curso técnico, conquistou seu emprego numa boa e grande empresa, e, com pouco tempo de serviço, sofreu um acidente onde um caminhão caiu da ponte e esmagou seu carro (também recém comprado). Houve quem dissesse: “Eu vinha atrás, mas Deus me livrou desse acidente!”   Eu pensava: “Será que Deus não quis livrar meu amigo desse acidente?” Bem, eu era muito jovem na fé!!!

Hoje, compreendo que a vida é muito mais complexa do que imaginava e percebo que minha fragilidade é bem maior do que as minhas forças. Estou sujeito a qualquer acidente e circunstância trágica tanto quanto estou sujeito a um futuro magnífico. Ainda ontem caí na escada da escola de teologia onde leciono e minha coluna está doendo demais. Poderia ter morrido, mas ainda assim, sei que Deus está comigo.

Precisamos perceber que estar ou não com Deus é uma decisão nossa. Deus já tomou a decisão de estar conosco, mas muitas vezes nós decidimos não estar com Ele. Quando o barraco de nossa vida pega fogo, e tudo perde sentido, só Deus é quem resta ao nosso lado, e, quando decidimos estar com Deus, apesar do incêndio, a fumaça que nos resta (a fé) será a nossa salvação.

Nem sempre as coisas dão certo em nossas vidas. Nem sempre darão! Mas, a presença de Deus é a única garantia que temos. Tudo depende de nossa escolha. Deus já fez sua escolha. E você?


Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, sois a ressurreição e a vida. Bem sei que vós me escolhestes para ser vosso discípulo e amigo. Mas tenho consciência que nem sempre eu escolhi vos seguir. Dai-me bom senso para discernir e optar pelo vosso seguimento e assim abraçar o projeto do Pai, independente do que me acontecer no futuro. Assim seja!!!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Na busca da Paz

Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. (Jo 14,28) 

A busca da paz é um desejo de todos nós. Mas existem muitas propostas de paz. Todas se resumem em apenas duas: paz do Mestre ou paz do mundo.

 O mundo tem oferecido à humanidade a sua proposta de paz baseada na ideia do conforto material. Paz é igual a abundância de bens. Se você tem muitos bens e muito dinheiro você tem paz! Você tem seu futuro garantido: plano de saúde, escola para os filhos, aposentadoria, casa grande, chácara com piscina, etc... Paz e felicidade.

 No entanto, as limitações humanas colocam em xeque a paz oferecida pelo mundo. O envelhecimento, as doenças ainda incuráveis, a violência, o mundo das drogas e suas consequências para os filhos, a dissolução do núcleo familiar, etc., mostram que bens e dinheiro não são suficientes para garantir a paz. O coração humano continua dominado pela perturbação e pelo medo... A tristeza vence a paz do mundo!

 Jesus Mestre também tem sua proposta de paz. Na missa estamos acostumados com o abraço da paz onde dizemos: "A paz de Cristo!" Sabemos que a paz de Cristo é todo um projeto de vida no Espírito, onde a matéria (bens) faz parte, mas não é essencial.

 A paz de Cristo é uma proposta de paz total que exige uma compreensão da nossa realidade no mundo. Estamos no mundo sujeitos a toda espécie de sorte. Fazemos o máximo para tornar a vida melhor e mais justa, pois nosso coração não se perturba, mas se inquieta com a realidade de nosso mundo. "Estar no mundo" e "ser no mundo" é nossa realidade, mas, no projeto da paz em Cristo não há espaço para "ser do mundo". Nesse sentido, a paz só será alcançado por nós quando assumirmos em nossa vida o jeito de viver de Jesus.

 Viver a paz de Cristo não significa que não teremos dificuldades, derrotas e tristezas. Essas virão... Entretanto, quando tomamos consciência de nossa realidade neste mundo e de nossa pertença ao Mestre de Nazaré, somos capazes de nadar contra a correnteza que quer nos afogar no medo e na perturbação. 

A paz de Cristo é a paz de Espírito e, nela conseguimos viver na fartura e na carência, na saúde e na doença, na juventude e na velhice, na alegria e na tristeza... Essa paz inquieta nos lança sempre à frente na busca daquilo que é o melhor, o bom vinho que dá a alegria.

 É Jesus Mestre a única chance de conseguirmos a paz total. Que venham os ventos contrários. Com Cristo nosso barco nunca afundará!

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, sois vós a minha paz e a única chance de eu ser feliz. Ajudai-me a navegar nesta vida com a sabedoria de vosso Espírito, de tal maneira que eu possa superar os ventos que são contrários e atingir a meta de minha vida: estar em vós para sempre. Assim seja!


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Meninas da Nigéria e o sequestro da religião

Disse Jesus: se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar. (Mt 18,6)

Nas últimas semanas recebemos a triste notícia, de que extremistas muçulmanos levaram centenas de meninas de um colégio interno no norte da Nigéria. Esse trágico fato deu origem a uma campanha mundial para que sejam salvas. A hastag #BringBackOurGirls tem sido vista em inúmeras imagens, páginas e sites.

As religiões atuais, em sua fundamentação, sempre manifestaram o desejo de construir um mundo de paz. Mas, na prática, as religiões sempre enfrentam movimentos de fanatismo que colocam suas ideologias acima da dignidade humana.

Sou cristão católico e tenho por princípio o seguimento de Jesus Mestre. Em minha religião existiu e existe movimentos fanáticos que colocam suas ideias acima do valor da vida. Muitas mortes foram feitas em nome de uma fé que se distanciou de seu Mestre. Em qualquer guerra (militar, civil, religiosa, etc.) as crianças e as mulheres são as principais vitimas. Estupros, escravidão, torturas, mutilação, genocídios...

Numa guerra de caráter religioso a primeira vítima é a própria religião. Esta é sequestrada por pessoas que são incapazes de interpretar as próprias ideias religiosas. Traem seus próprios livros (Torah, Corão, Bíblia, etc.) e semeiam tudo aquilo que os livros sagrados condenam. Os livros Sagrados relatam a violência para não a reproduzirmos em nossas vidas. Em última instância o que vale é o sentido último proposto Moisés, Maomé, Jesus... Arautos da Paz.

Como disse, sou cristão católico e entendo pouco de Islamismo. Mas, estudando o Corão, encontro uma profunda mensagem de paz e de respeito à dignidade humana, onde Jihad não significa “guerra santa”, mas significa “empenho e luta” pela paz.

Dito isso, aquelas meninas nigerianas foram sequestradas por um grupo que sequestrou o sentido verdadeiro do Corão, traindo o que disse Maomé.

Infelizmente, não damos conta de resolver os problemas das crianças de nosso país e, agora, vemos estarrecidos a triste jornada daquelas mais de 200 crianças sob a ação odiosa daqueles que as violentam, com a desculpa de que a educação (ler e escrever) é um direito apenas masculino e que o mundo ocidental contaminou aquele país.

E nós? O que podemos fazer? A princípio, devemos corrigir nossos próprios erros. Nossas crianças também são sequestradas e violentadas a cada dia. A exploração sexual de meninas e meninos é uma triste realidade com a qual convivemos com naturalidade. Com a copa do mundo a situação tende a piorar. Boa parte de nossas crianças não tem o direito de brincar, pois, desde pequeninas, já trabalham, já se drogam, já são prostituídas. A educação não consegue educar. Precisamos fazer nossa lição de casa.

Nosso sistema politico já não consegue corrigir suas próprias falhas: pois são os corruptos aqueles que julgam corruptos e corruptores. Mesmo se aprovando a “Lei da Ficha Limpa”, os de ficha suja continuam disputando eleições.

Nosso sistema judiciário não é capaz de julgar rapidamente. Crimes e crimes não são condenados por prescrição. Precisamos fazer a lição de casa.

Enfim, precisamos lutar para que a surja entre todos os países uma consciência “mundializada” de humanidade, de forma que nos sintamos todos irmãos, apesar de nossas diferenças. Assim, as crianças sejam defendidas por todos e que todos reconheçam a dignidade de todo ser humano.

Parece utópico? Sim! Mas, não há outro caminho para a paz!


Divulgue seu apoio para a devolução de nossas crianças nigerianas! Sim, nossas crianças pois somos todos irmãos! Não nos esqueçamos que as crianças são as prediletas de nosso Mestre.

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, que abençoastes as crianças e as defendestes com vosso própria vida, tocai minha consciência para que eu assuma a defesa radical de todas as crianças. Fazei que eu seja um promotor de vossa paz. Assim seja!



terça-feira, 6 de maio de 2014

Martírio de Estevão, martírio de Fabiane

Mas eles, dando grandes gritos e, tapando os ouvidos, avançaram todos juntos contra Estêvão; arrastaram-no para fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem, chamado Saulo. Enquanto o apedrejavam, Estêvão clamou dizendo: “Senhor Jesus, acolhe o meu espírito”. Dobrando os joelhos, gritou com voz forte: “Senhor, não os condenes por este pecado”. E, ao dizer isto, morreu. (At 7,57-60)

Estamos no Tempo Pascal. Nos últimos dias acompanhamos a narrativa do martírio de Santo Estevão. 

Estêvão foi um dos sete primeiros diáconos da igreja nascente, logo após a morte e Ressurreição de Jesus, pregando os ensinamentos de Cristo e convertendo tanto judeus como gentios. Estevão pertencia a um grupo de cristãos que pregavam uma mensagem mais radical, um grupo que ficou conhecido como os helenistas, já que os seus membros tinham nomes gregos e eram educados na cultura grega e que separou do grupo dos judeus cristãos apóstolos. Também eram conhecidos como o "grupo dos sete", isto é, diáconos. Foi detido pelas autoridades judaicas, levado diante do Sinédrio (a supremo Conselho de Jerusalém), onde foi condenado
por blasfêmia, sendo sentenciado a ser apedrejado (Atos 8). Entre os presentes na execução, estaria Saulo de Tarso, o futuro São Paulo, ainda durante os seus dias de perseguidor de cristãos. (Cf. Wikipedia)



Estamos no Tempo Pascal. Nos últimos dias acompanhamos o Martírio de Fabiane.

“Fabiane Maria de Jesus, esposa e mãe de dois filhos, sofria de problemas psiquiátricos (transtorno bipolar de humor) e passou por um problema de depressão pós-parto. Ela participou do grupo de jovens católico da Comunidade São João Batista e todos que a conheceram sabem que ela seria incapaz fazer mal a alguém. Voltava para buscar sua Bíblia (Ave Maria). Foi acusada injustamente de sequestrar e de praticar atos de magia negra contra crianças. Fabiane foi encurralada no último sábado em uma rua do bairro por uma turba com sangue nos olhos. Levada ao fundão de uma quebrada, segura pelos braços e pernas como um animal indo ao sacrifício, espancaram-na sob os olhares entre horrorizados e cúmplices de crianças, homens, mulheres e idosos. Vítima de um ato cruel e desumano de linchamento em via pública, o que levou à sua morte. O suplício de Fabiane incluiu socos no rosto, marretadas na cabeça, pontapés. Já inerte, o corpo foi jogado em uma vala fétida. (Cf. https://br.noticias.yahoo.com/blogs/laura- capriglione/exerc%C3%ADcio-monstruoso-%C3%B3dio-034242058.html)


Quanta semelhança... Eis minha homenagem a essa irmã:


Ao ouvir essas palavras, eles ficaram enfurecidos e rangeram os dentes contra Fabiane. Repleta do Espírito Santo, pois ela buscava sua Bíblia - Palavra de Deus. Fabiane viu nos olhos deles todo ódio e irracionalidade. Mas, olhando para o céu, viu a glória de Deus, e Jesus, de pé, à direita de Deus. Então pensou: «Estou vendo o céu aberto e Jesus Mestre, de pé à direita de Deus.» Então eles deram fortes gritos, taparam os ouvidos e avançaram todos juntos contra Fabiane. Arrastaram-na para fora da cidade e começaram a apedrejá-la, marretá-la e socaram-na .
As testemunhas nada fizeram para protegê-la. Atiravam paus e pedras em Fabiane, que repetia em seu coração esta invocação: «Senhor Jesus, recebe o meu espírito.» Depois dobrou os joelhos e gritou forte: «Senhor, não os condenes por este pecado.» E, ao dizer isso, adormeceu. (Cf At 7...)

Obs.:
Fabiane tem 33 anos... (Idade de Cristo)
Fabiane Maria de Jesus (Seu sobrenome é o nome do Mestre e de nossa Mãe)

Hoje meu mundo está muito mais triste. 
Pe. Demetrius dos Santos Silva


sexta-feira, 2 de maio de 2014

Você me ama?

Jo 21,15-19
(Tradução Pe. Demetrius)

15. Depois de comerem, o Mestre perguntou a Simão Pedro: "Simão, filho de João, você me ama pra valer? Pedro respondeu: "Sim, Mestre, eu sou teu amigo!" O Mestre disse: "Dedique-se aos meus cordeiros".
16. O Mestre perguntou de novo: "Simão, filho de João, você me ama?" Pedro respondeu: "Sim, Mestre, eu sou teu amigo!" Disse o Mestre: "Dedique-se às minhas ovelhas!"
17. O Mestre perguntou uma terceira vez: "Simão, filho de João, você é meu amigo?" Pedro, com tristeza pela terceira pergunta, responde: "Mestre, tu sabes tudo, eu sou teu amigo!" Disse o Mestre: "Dedique-se às minhas ovelhas.
18. Na verdade, na verdade digo a você: Quando você era jovem, se vestia e ia para onde queria. Mais velho, vão vesti-lo e o levarão para onde não quer ir!".
19. Jesus Mestre estava se referindo sobre o tipo de sacrifício com que Pedro glorificaria a Deus. O Mestre disse-lhe: "Siga-me".

Algumas Notas
  • O Mestre deseja cultivar com Pedro a profundidade do amor. É na intimidade com Deus que crescemos no amor. Para o discípulo hoje, essa intimidade é cultivada através da espiritualidade, onde nos propomos a seguir os passos de Jesus.
  • O Mestre faz a Pedro a pergunta fundamental: "Você me ama pra valer?" Essa pergunta é feita a todo discípulo do Mestre. Respondê-la com sinceridade é essencial.
  • Pedro responde com a verdade. Ele é amigo do Mestre, mas ainda não é capaz de dar a vida por Jesus. Por assumir a verdade, o Mestre confia totalmente em Pedro e dá a ele a missão de tomar conta do rebanho, isto é, cuidar da comunidade dos discípulos. Quando assumimos a verdade, o Mestre confia em nós!
  • O Mestre pergunta três vezes dando a oportunidade ao discípulo de corrigir suas três negações. Jesus sempre nos dá a oportunidade de corrigir nossos erros no discipulado!
  • Na duas primeiras perguntas, o Mestre usa o verbo amar. Na terceira, o Mestre, percebendo a limitação de Pedro, usa "ser amigo". Pedro fica triste, pois percebe suas próprias limitações.
  • Ao assumir suas limitações, o discípulo recebe do Mestre a garantia de que crescerá no amor a ponto de poder dar a vida em sacrifício. Para isso o discípulo deverá se deixar guiar pelo Mestre (ser vestido).
  • Enfim, ao ser guiado pelo Mestre, a vida do discípulo será a continuação do Evangelho do Mestre e glorificação do próprio Deus. Quando estamos dispostos a correr esse risco, o Mestre confirma seu chamado nos dizendo: "Siga-me!"

  • Obs.: Estamos acostumados com a tradução clássica: Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo. No texto em grego Jesus pergunta sobre o amor (Ágape) e Pedro responde sobre a amizade (Filia). Seria mais ou menos, assim: Disse Jesus: Simão, você me ama? Pedro respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que eu gosto de ti! Na terceira pergunta: Disse Jesus: Simão, você gosta de mim? E aí Pedro fica triste..

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, conheceis minhas limitações e fraquezas e, mesmo assim, confiastes em mim. Mesmo sendo incapaz de vos amar como sou amado por Vós, me quereis como vosso discípulo. Fazei que eu cresça no amor e na intimidade convosco. Assim seja!



quinta-feira, 1 de maio de 2014

À Beira do Lago

Jo 21,1-14
(Tradução Pe. Demetrius)

1. O Mestre manifestou-se aos discípulos à beira do lago de Tiberíades. Foi assim:
2. Reunidos Simão Pedro, Tomé, o gêmeo, Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu, e outros dois discípulos.
3. Simão Pedro disse: "Vou pescar". Os outros disseram: "Também vamos". Estavam no barco, mas não pescaram nada naquela noite.
4. Ao amanhecer o Mestre estava na beira. Eles não reconheceram o Mestre.
5. O Mestre disse: "Jovens, vocês têm o que comer?" Disseram: Não!
6. O Mestre disse: "Joguem a rede à direita e pescarão". Eles jogaram a rede e não conseguiam arrastá-la de tanto peixe que tinha.
7. Então, o discípulo mais íntimo do Mestre disse a Pedro: "É o Mestre". Simão Pedro estava nu, mas sabendo que era o Mestre, vestiu-se e nadou.
8. Os outros vieram no barco cuidando da rede com os peixes. Estavam a uns cem metros da beira.
9. Chegaram em terra firme e o Mestre assava peixe e tinha pão.
10. O Mestre disse: "Tragam mais peixe".
11. Simão Pedro foi no barco e trouxe a rede que tinha cento e cinquenta e três grandes peixes e ela não se rompeu.
12. O Mestre disse: "Vamos comer". Eles não perguntaram quem era, pois sabiam que era o Mestre.
13. O Mestre tomou o pão e deu aos discípulos. Fez o mesmo com o peixe.
14. Essa foi a terceira vez que Jesus Mestre ressuscitado dos mortos manifestou-se aos discípulos.

Algumas notas:
  • Jesus Mestre ressuscitado se manifesta uma terceira vez. Os discípulos deixaram o Mestre à margem.
  • Ao deixar Jesus à margem de suas vidas, os discípulos voltaram atrás. Deram marcha ré na vocação. Eles já tinham deixado o barco e as redes para pescar gente e agora voltam a pescar peixe.
  • Quando deixamos Jesus de lado, quando abandonamos nossa intimidade com Deus, nós voltamos para trás... Somos dominados pela escuridão (noite) e deixamos de produzir fruto (peixes). Nada do que fazemos passa a dar certo.
  • Se Jesus fica à margem, deixamos de reconhecê-lo e ele passa a ser um desconhecido em nossa vida. Ele fala conosco, mas não o percebemos.
  • Sem o Mestre, não temos o que comer nem o que oferecer para alimentar os irmãos.
  • O Mestre manda jogar a rede. Quando obedecemos o mandamento de Jesus, nossas redes ficam cheias, cheias de sentido!
  • Reconhece primeiramente o Mestre, o discípulo mais íntimo.
  • Pedro estava nu... Perdeu sua identidade de discípulo. Só quando reconhece Jesus ele volta a ter sentido e enfrenta o mar da vida.
  • Os discípulos chegam à beira e o Mestre já tem peixe assado. Jesus Mestre sempre tem a iniciativa. É ele que se oferece em comunhão.
  • A Eucaristia é celebrada na Praia. Ela dá sentido e é feita na intimidade. Só compreendemos verdadeiramente a eucaristia quando vivemos intimamente com Jesus. Isso explica porque tanta gente perdeu o sentido da missa.

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, não permitais que eu vos deixe à margem de minha vida. Quero escutar e obedecer vosso mandamento. Quero escutar o vosso convite para comer convosco à beira do lago. Alimentai minha alma e dai-me a vossa paz. Assim seja!