segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Banalização do Amém no Catolicismo

Disse Jesus: Ao anjo da igreja que está em Laodicéia, escreve: "Assim fala o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus”. (Ap 3,14)

A palavra Amém sempre foi, para a Igreja Católica, um indicativo de adesão e afirmação de fé. Utilizada nos finais das orações e profissões de fé, ela estabelece nossa total adesão à verdade que se impõe à nossa razão. O Amém é utilizado em momentos fortes de nossa relação com Deus.

Ultimamente, vemos em nossa Igreja a banalização da palavra Amém. O Amém está sendo utilizado como uma interjeição sem sentido, um cacoete sem nexo com a fé. Há muitos anos, o Amém já havia sido banalizado nas igrejas pentecostais. Esse fenômeno, agora também pertence à nossa Igreja. Recentemente, numa missa, o comentarista falava: “Amados, no próximo fim de semana teremos festa. Amém? Na quinta-feira vai acontecer o terço na casa da dona Maria. Amém? No dia 15, teremos ensaio. Amém?”

O Amém é uma palavra hebraica (אָמֵן) que indica a ideia de firmeza e de realidade. Alguns estudiosos relatam que o Amém era a última estaca pregada ao chão para dar firmeza à tenda. De difícil tradução, popularizou-se a  ideia de que significa assim seja. É fato que essa palavra não tem tradução direta para a nossa língua.

No Evangelho de São João, Jesus diversas vezes diz a palavra Amém. Por exemplo: ”Jesus respondeu, e disse-lhe: Amém, amém eu te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus". (Jo 3,3) Aqui, a palavra Amém é traduzida pela expressão "em verdade”. Indica uma máxima de testemunho de fé.

Em todos os sentidos, o Amém é utilizado somente em coisas muito sérias. E dizer “Amém” para qualquer coisa demonstra nosso pouco conhecimento e vivência de fé. Infelizmente, ainda importamos coisas ruins de outras Igrejas. Nós católicos não devemos dizer amém para tudo. Devemos nos corrigir desse cacoete pentecostal e retomar  a importância dessa palavra nos momentos cruciais de nossa caminhada de fé. Se hoje tem gente na Igreja que fala amém para tudo, muitos não dizem o amém quando vão comungar o Corpo e o Sangue de Jesus. O padre diz: “O Corpo de Cristo”, e a pessoa toma a hóstia sem nada dizer. 

O amém é palavra de Fé, e como como palavra de fé deve manifestar a Fé que recebemos da Igreja, através das Escrituras e da Sagrada Tradição. 

Por fim, é importante lembrar que Jesus Mestre é o verdadeiro Amém, para a glória de Deus Pai. É Ele quem dá sustento para a nossa fé e corrige nossos desvios pela ação de seu Evangelho. Jesus é a Verdade e, com isso, o seu Amém foi na Cruz a adesão de seu sangue derramado para a salvação de todos. O amém não deve ser banalizado jamais.



Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, o Amém e a Testemunha Fiel, fazei que a Verdade que sois vós, ilumine a minha vida de tal maneira, que eu possa ser um convosco. Assim seja. Amém! 



Pe. Demetrius dos Santos Silva

sexta-feira, 5 de maio de 2017

E Quando o Padre Perde a Vida?

Disse Jesus: “Esta é a vontade do meu Pai: que todo homem que vê o Filho e nele acredita, tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”. (Jo 6,40)

Recentemente, a notícia de que padres cometeram suicídio escandalizou muitas pessoas. Cristãos, ateus, profissionais da saúde, bispos, leigos, padres, etc., ficaram chocados porque homens que lidam com o sentido da vida perderam o sentido de viver.

Algumas pessoas (ingênuas) descobriram que os padres também têm sentimentos e que podem sofrer. Outras perceberam que muitos padres derramam o seu suor até a exaustão para ajudar as ovelhas que sofrem, mas eles não têm quem os ajude a enfrentar seus próprios problemas.

Sozinhos, incompreendidos, exaustos e frustrados, os padres nem sempre encontram força na oração e na espiritualidade, e acabam buscando conforto na bebida, no luxo ou nos braços de outra pessoa que não é Cristo. Por fim, há aqueles que tiram a própria vida. Vida que já havia sido tirada numa rotina de ativismo em meios às críticas mais cruéis e perversas.

Se você ainda não sabia, fique sabendo: nós, padres, somos seres humanos. Temos defeitos, sentimentos, fraquezas, limitações. Colocamos nossa vida nas mãos de Deus e Ele é quem faz de nós criaturas novas. Mas, alguns de nós não conseguem cultivar o sentido de Cristo numa vida exaustiva e sem “retorno” de seus trabalhos.  

Também formou-se na Igreja um clima de perseguição online dos padres. Se o padre erra na liturgia, logo é denunciado no facebook, ou é acusado ao bispo ou a nunciatura. Se o padre pensa diferente de determinados grupos conservadores, estes logo difamam o padre em sites e redes sociais.

Toda semana eu sou obrigado a responder pessoas que criticam a “comunhão na mão”. Toda semana eu devo me explicar porque eu não uso casula em todas as missas. Toda semana sou obrigado a ouvir pessoas que pedem punição aos grupos de oração porque rezam em línguas ou fazem o tal do repouso no espírito. Tudo isso suga as poucas energias dos padres.

Diante desse clima e dessas circunstâncias, nós padres buscamos somar forças com outros padres na busca de uma espiritualidade que nos sustente diante de tantas adversidades. Tenho pessoalmente encontrado força na espiritualidade discipular e me imagino como um “eremita urbano”. Um homem que vive no meio da comunidade, mas que cultiva a solidão de estar com Cristo na Bíblia e no céu estrelado acompanhado por um telescópio.

Nós precisamos repensar nossas comunidades e paróquias. Nos tornamos especialistas nas mais diversas pastorais, movimentos e grupos, gastando tempo e energia com reuniões e atividades inúteis, e abandonamos nossa especialidade primeira: formar discípulos e discípulas de Jesus. Creio que nós, padres, bispos e diáconos, seremos mais felizes se nos dedicarmos ao essencial: Cristo e comunidade. Esse assunto continua... Paz e bem!



Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, fazei que o sentido de minha vida seja vossa pessoa a me conduzir ao Pai. Seja vossa Palavra e vossa Eucaristia, o alimento a me sustentar neste mundo tão complexo. Seja o vosso Espírito a luz que alumia o meu caminhar entre as trevas da ignorância. Que na solidão eu não me sinta só, pois estais comigo. Assim seja, amém!

Pe. Demetrius Silva

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Na Beira do Abismo

Tu me atiraste no abismo, bem no fundo do mar. Ali as águas me cercavam por todos os lados, e todas as tuas poderosas ondas rolavam sobre mim. (Jn 2,3)

Nos últimos dias sinto que existência humana chegou à beira do abismo. A selvageria irracional eclode em todos os lugares de tal maneira que a racionalidade, característica principal que define o ser humano, encontra-se moribunda. A insanidade generalizada de nosso tempo assume formas trágicas de violência que alcançam os limites do absurdo e, como um ralo no fundo de uma piscina, busca dragar-nos retirando-nos a possibilidade de viver a paz e em paz.

Muitas vezes perguntei a mim mesmo se ainda vale a pena lutar pela paz e anunciar o amor, pois sinto que estamos muito próximos da autoextinção. Mesmo com o desejo de desistir, lembro-me de São Paulo a nos dizer: “Ai de mim se não evangelizar!” (1Cor 9,16). O anúncio do Evangelho não é uma opção do discípulo de Jesus, mas é uma necessidade vital.

Quando alguém é marcado por Cristo, toda a genética de sua alma é transformada por Ele de tal forma que a vida não encontra sentido fora dEle. Diante do abismo em que encontra-se a humanidade, só em Cristo teremos força de continuar caminhando para frente.

Soren Kierkegaard, cristão e filósofo, dizia: “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas, só pode ser vivida olhando-se para frente”. Todo abismo gera medo e incompreensão. Mas é diante do abismo que podemos crescer de forma absoluta. É agora o momento onde a humanidade pode ser verdadeiramente humana. O abismo não é o fim, mas sim a grande oportunidade de darmos um salto em direção ao infinito e absoluto. É crendo em Cristo que daremos esse salto.

Chesterton dizia: “Quando estamos na beira do abismo, a única maneira de progredir é retroceder”. Discordo. Há abismos que não nos permitem voltar atrás. Ou ficamos parados ou damos o salto. Kierkegaard também dizia: “A porta da felicidade abre só para o exterior; quem a força em sentido contrário acaba por fechá-la ainda mais”. É no momento difícil diante do abismo que a humanidade pode dar um salto para a felicidade. É em Cristo que o salto alcançará o absoluto. Paz e bem!

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, encontro-me diante do abismo unido a toda humanidade. Diante da escuridão total, apenas em Vós encontro luz. Confio que, caminhando para frente, encontrar-me-ei convosco e que vossas mãos me segurarão em toda queda. Assim seja, amém!



Pe. Demetrius Silva

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO

 
           A fé cristã é diferente de todas as outras. A religião cristã é incompreendida e perseguida em muitos lugares. Ela é tida por absurdo pelo fato de crer que Deus é único, mas é três pessoas e, assim, a fé cristã é acusada de ser um politeísmo (crença em vários deuses) disfarçado. Mas, o que mais escandaliza todas as outras religiões é a ideia de que Deus imutável possa mudar e assumir plenamente a realidade humana: Deus encarnou-se, isto é, fez-se humano e assumiu a imagem e semelhança de sua criatura.

            A encarnação de Cristo, na plenitude dos tempos, inseriu em nossa temporalidade que passa um relampejo da eternidade que não passa. Este relampejo que durou cerca de 33 anos transformou todo o universo inserindo em cada partícula a semente da salvação.

            Porém, não podemos nos enganar. A encarnação de Deus não é um conto de fadas e nem uma história de ninar. A criação toda está gemendo em dores de parto (Rm 8,22) e o sofrimento humano é compartilhado por todas as criaturas. É nesse mundo de dor e sofrimento que Jesus, epifania do amor do Pai, encarnou-se. Ele tornou-se frágil, sendo uma criança que necessitou de todos os cuidados de mãe e de pai. Ao assumir a carne humana, Jesus teve a necessidade de ser cuidado por Maria e José, num tempo de perseguição e extremo sofrimento. Nada de fraldas descartáveis e pediatras de nosso tempo.

            A encarnação é escândalo porque a cruz é escândalo. Jesus nasce para morrer na cruz. A Encarnação acontece em função do mistério pascal.

            A humanidade, no início, optou por conhecer o mal e foi seduzida pela serpente e assim desfigurou-se sua imagem: de imagem e semelhança de Deus, nos tornamos imagem e semelhança da antiga serpente. Não dá para permanecer no jardim de Deus sem ser semelhança dEle. Desse modo, a humanidade foi expulsa, ou melhor, expulsou-se de Éden. Deus, em diversas tentativas, quis trazer a humanidade de volta ao jardim. Mas, a humanidade continuava a optar pelo mal enamorando-se pelo pecado.

            Deus então resolve sair do jardim para, Ele mesmo, reintroduzir a humanidade em Éden. Deus fez-se imagem e semelhança do humano, para mostrar como devemos ser humanos. Cristo assumiu a carne humana em sua total fragilidade e ocupou a posição mais baixa: a de escravo. E, passando pela cruz (a pior morte), venceu o fruto do pecado (a morte) e reintroduziu a a humanidade no jardim celeste.

            O Mistério da encarnação só pode ser entendido sob a penumbra do Mistério da Cruz. E o Mistério da Cruz não pode ser entendido, mas experimentado no amor. Ao tornar-se a criança de Belém, Jesus dava o primeiro passo para reintroduzir-nos no Paraíso. Na cruz, Jesus dava a própria vida, o último passo da salvação. Da cruz, todo o resto é consequência do amor: a ressurreição e o Reino definitivo. Como discípulos de Jesus, a encarnação também deve ser o primeiro passo...


Paz e Bem e Feliz Natal!


Padre Demetrius

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Discípulo Cansado

Ele, porém, me respondeu: «Para você basta a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder.» Portanto, com muito gosto, prefiro gabar-me de minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. E é por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte. (2Cor 12,9-10)


Mestre, preciso te falar
Chego ao fim deste dia cansado, exausto.
Mas, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Meus passos estão mais curtos.
Minhas mãos perdem firmeza.
Minha memória... Esqueci...
Mestre, meus olhos são falhos...
Meus ouvidos querem ficar moucos.
Pois, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Minhas células se tornam tóxicas,
Minha voz enfraquecida
Canta e grita sem ser ouvida,
Minhas idéias esquecidas
São o que sobrou de mim.
A gravidade se faz mais pesada
Sobre meu frágil esqueleto
E meu coração vacilante
Bate errado a todo instante.
Mas, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Mestre, quando eu olho à minha volta
Vejo triste poucas formas.
Como num espelho turvo
Vejo os outros em sofrimento.
Somos como uma família
Muito unida no sofrer.
Já não tenho otimismo
Porque venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Mestre, perdoa-me os lamentos,
São meus pobres sentimentos
Que eu quero partilhar.
Sei que me escutas,
Meus resmungos e lamúrias
E meu coração a reclamar.
Mestre, eu sei muito bem
Que sofreste muito além
Do que eu possa imaginar.
Mas, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Mestre, já estou de saída
Pois eu venho na lida
Para te anunciar.
Porém, eu compreendo
Que nas minhas fraquezas
Tua força está.
Mestre, todo o meu cansaço,
Todo o meu sofrimento
Quero te ofertar.
Mestre, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.
Mas, não me canso de Ti,
Não me canso de ti.
E não me canso de ti.



Pe. Demetrius


sábado, 14 de maio de 2016

O Espírito Santo é Especialista em Cristo


Arte: Lúcio Américo Arte Sacra
Disse Jesus: "O Espírito da Verdade manifestará a minha glória, porque ele vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês. Tudo o que pertence ao Pai, é meu também. Por isso é que eu disse: o Espírito vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês." (Jo 16,14-15)

Padre, por que a Igreja fala tão pouco do Espírito Santo?  Essa pergunta foi-me feita por uma jovem, após um retiro onde ela experimentou a vivência do Espírito Santo.

De fato, das pessoas da Santíssima Trindade, o Espírito Santo é o menos falado. Mas, não é à toa. Para entendermos a questão, encontraremos a resposta no jeito de ser do próprio Espírito Santo.

O Pai que tudo cria, cria por amor ao contemplar o amor de seu Filho unigênito. O Filho, ao contemplar o amor do Pai, salva todos por amor. O amor do Pai para com o filho, e o amor do Filho para com o Pai é tão gigantesco que não se contém. O amor infinito entre o Pai e o Filho, amor que não se contém, é tão maravilhoso que não é apenas um sentimento, mas uma pessoa: o Espírito Santo.

O Pai nos dá o maior e melhor presente: o Filho unigênito. Ao amar e louvar o Filho, estamos amando e louvando o Pai. A alegria do Pai é ver seu Filho amado por todos.

O Espírito Santo é o especialista em Jesus. É o Espírito Santo que mantém entre nós e em nós a presença de Jesus, caminho que leva ao Pai. Sem o Espírito Santo não há vida. O Espírito Santo só sabe falar de Jesus. Se o Pai nos dá o Filho e o Filho só sabe falar do Pai, o Espírito Santo só sabe falar de Jesus. O Espírito não fala de si mesmo e, por isso, pouco aparece. Mas sua presença é fortemente sentida por quem ama a Deus, pois é o Espírito que coloca dentro de nós a presença de Jesus.

O Espírito Santo é tímido para falar de si e extrovertido para falar de Jesus. Quando nos abrimos ao Espírito Santo nosso ser fica totalmente sedento de Jesus e por Ele somos guiados. Os dons doados pelo Espírito nos enchem dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus.

Assim, o Espírito Santo nos ensina que tudo deve ser por Cristo, com Cristo e em Cristo e isso explica por que falamos tão pouco do Espírito Santo, pois para Ele só Jesus interessa. O Espírito Santo é o toque suave do amor de Cristo que nos leva ao Pai. Paz e bem!!!

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, enviai vosso Espírito Santo sobre mim afim de que eu possa fazer vossa vontade, que é a vontade do Pai. Que o Espírito da verdade coloque dentro de mim a vossa presença e que o amor Pai resplandeça em minha vida. Assim seja. Amém


Pe. Demetrius Silva 


quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Controle de Deus

O Senhor renova as minhas forças e me guia por caminhos certos,
como ele mesmo prometeu. (Sl 23,3)


Muitas vezes eu olho à minha volta e me questiono sobre os rumos que a humanidade tem tomado. Tanta discórdia, corrupção, mortes e toda espécie de maldades extremas têm feito de nosso mundo um local onde a esperança, a última que morre, morra. Dá-se a impressão de que Deus abandonou o mundo à sua própria sorte e que não há mais o que fazer: o fim está próximo. 

Mas, isso é apenas uma impressão. A impressão de que Deus não está no controle do mundo. Quando mais jovem eu pensava que tinha o controle de minha vida. Mas, muitas coisas que eu tinha planejado para a minha vida deram “errado” e foram “por água abaixo”. Percebi que o controle de minha vida estava além de meu alcance. Mas não conseguia compreender este mistério.

Recentemente, eu vi uma mãe levando sua filha num carrinho rosa. O carrinho tinha forma de automóvel e a menina o dirigia com alegria. Ela fazia com a boca o barulho de motor e virava o volante como uma motorista experiente. Por diversas vezes ela buzinava como que pedindo passagem. Mas era a mãe quem verdadeiramente pilotava o carrinho.

Ao contemplar essa bela imagem da vida real, eu pude compreender um pouco o mistério do controle de Deus. Sou como a menina dentro do carrinho. Penso e desejo estar no controle de minha vida. Posso interferir nos eventos que estão ao meu alcance. Posso buzinar, posso pisar no freio, virar o volante e colocar o cinto de segurança, como fez a menina. Mas não tenho o controle de minha vida. Da mesma forma que a mãe conduzia o carrinho, minha vida é conduzida por Deus. Ele é quem me conduz pelos caminhos esburacados desta minha vida. Tantos planejamentos que eu realizei não aconteceram da forma que eu queria. Porém, sempre percebi o carinho de Deus para comigo, mesmo sem entender os seus planos.

Como aquela mãe conduzindo o carrinho de sua filha, Deus conduz a nossa vida e a história de nosso mundo. Apesar de pensarmos que o mundo esteja fora de controle, Deus está no comando e vai conduzir o carrinho de nossas vidas para o melhor destino possível. Mas a estrada é cheia de buracos que não compreendemos, pois nossa visão é limitada porque estamos dentro do carrinho de nossas vidas. Mas aquele que é Eterno está atrás de nós com suas mãos no controle. Ele tem a visão total de nosso horizonte e nos conduz, não para onde queremos, mas para onde devemos ir. Cabe a nós usarmos a nossa liberdade para manter nosso carrinho em ordem, isto é, nossa vida em sintonia com a vida.


Oração: Senhor, Jesus Cristo, Mestre de mim, conduzis minha vida por estradas que eu não compreendo. Fazei que, nos momentos de fraqueza onde não entendo o mistério do viver, possa compreender e sentir que vós estais no controle de nossa história e proclamar para toda a humanidade a esperança de um mundo novo, a civilização do amor. Assim seja. Amém!

Pe. Demetrius dos Santos Silva



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Fugir sempre da dor?


E Jesus, chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. (Mc 8,34)




A dor é algo ruim. Seja física, psicológica ou espiritual, a dor é algo que evitamos a qualquer custo. Apesar do avanço da medicina na produção e descoberta de anti-inflamatórios e analgésicos, ainda convivemos com situações onde a dor é insuportável e a medicina não está ao alcance de todos. Quanto mais pobre, mais vulnerável a dor e à falta de assistência médica. Muitas pessoas passam pela dor extrema e não são socorridas. A dor tira a paz.

Contra a dor psicológica e espiritual não existem anti-inflamatórios ou analgésicos. Ela só pode ser enfrentada de duas formas: fugindo ou confrontando.

Nossa sociedade optou por fugir da dor psicológica e espiritual. Criou-se vários modos de fugir da dor escamoteando-a para se fingir que ela não existe; ocultando sua origem e desviando o foco de sua causa para algo que não existe. Trocando em miúdos: não se enfrenta a causa da dor e coloca-se a culpa noutra coisa.

E a religião? Boa parte dos grupos religiosos optou por fugir da dor e não enfrentá-la cara a cara. Parte resolveu ganhar dinheiro com a dor alheia. Quanto mais as pessoas fogem da dor, mais a dor continuará em suas vidas, e mais lucro darão aos exploradores da dor. Culpam demônios, encostos, feitiçarias, ou qualquer outra coisa, pelas dores de nossa vida, e com isso ganham uma multidão de pessoas que optaram por fugir...

Todos enfrentamos situações que nos causaram e ainda causam dor. Fugir delas não ajuda no processo de cura interior. Nossa alma é profundamente influenciada pelas situações de dor e de trauma e, com toda certeza, elas também são constitutivas de nossa personalidade. Alcançam a paz aqueles que enfrentam a dor e o trauma.  O filósofo católico-maronita Gibran Khalil Gibran disse: “Do sofrimento emergiram os espíritos mais fortes, as personalidades mais sólidas estão marcadas com cicatrizes.


Lutar contra a dor da alma (sofrimentos e traumas) é enfrentar o passado e o presente, aceitando nossa história e superando tudo aquilo que nos fez parecer o que não somos. Somos humanos e insubstituíveis. Fugir dessa dor é deixar de ser quem somos. Enfrentá-la é, de certa forma, descobrir nossa própria vocação. 

Um conselho final: tenha bons amigos. Eles são um verdadeiro tesouro.




Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, Vós que carregais as vossas e as minhas dores, ajudai-me a encarar o meu passado com serenidade, de tal maneira que eu aceite a minha história e meus sofrimentos e, convosco, viver a paz. Assim seja. Amém!


Pe. Demetrius dos Santos Silva

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Padre, agora eu posso "anular" o meu casamento?

Disse Jesus: "O homem deixará seu pai e sua mãe, e os dois serão uma só carne. Portanto, eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar. (Mc 10,7-9)

            O Papa Francisco reformou nestes dias o processo jurídico de análise das causas de nulidade matrimonial.  O processo foi simplificado, reduzindo tempo e gastos. Assunto divulgado em todas as mídias, tal reforma ganha repercussão em todos os países e igrejas locais.
            Uma pessoa me procurou e me perguntou: Padre, agora eu posso "anular" o meu casamento?" A resposta é: Não!!! Não pode anular seu casamento!!!
            Ninguém pode anular um casamento. Anular quer dizer que algo que existia deixa de existir. Anular um casamento significa dizer que um casamento que existia deixou de existir.  Isso não é possível no sacramento do matrimônio. O que Deus uniu, o homem não separe!
            Sim, o que Deus uniu, ninguém tem a autoridade de separar.  Nem a Igreja, nem o Papa tem o poder de separar um casal verdadeiramente unido pelo vínculo do sacramento do Matrimônio. Somente a morte...
            As notícias da mídia veiculam a ideia de que o Papa Francisco mudou a Tradição da Igreja e sua Doutrina dizendo que ele abriu as portas para "anular" casamentos facilmente. Não! Não existe anulação de casamento na Igreja. Uma vez unido por Deus, só a morte desfaz a união.

            Então, o que a igreja faz? A Igreja verifica se o casamento foi verdadeiramente unido por Deus. Por exemplo: um casamento feito de maneira forçada não pode ser abençoado por Deus, pois Deus não abençoa a mentira. Um casamento forçado, apesar de ter sido celebrado, não existiu para Deus. Se a Igreja encontrar evidências de que o casamento foi forçado e um dos noivos foi obrigado a ser casar, a Igreja declara que o casamento não existiu, pois Deus não uniu.
            Dizer que um casamento não existiu é declarar que ele foi "nulo". Isso, NULO, sem o "a". Nulo quer dizer que não existiu, pois Deus não uniu. Mas, para declarar um casamento nulo, os separados devem provar que o casamento reuniu elementos que provam sua inexistência. E, para isso, os separados devem mover um processo no tribunal da Igreja.
            TRIBUNAL!!! Sim, tribunal. A Igreja possui seu código de Leis, o Direito Canônico. Possui tribunais onde os problemas são elucidados e o casos são julgados de acordo com o Código de Direito Canônico. Tem juízes, advogados, audiências, julgamentos... E, por fim, burocracia, muita burocracia.
            Mover um processo no tribunal envolve muitos gastos e burocracia. O que o Papa Francisco fez foi reduzir a burocracia e, com isso, reduzir gastos. Um processo podia durar anos no tribunal e era julgado em duas instâncias e até numa terceira. Simplificando o processo, basta a decisão numa instância, e, os casos especiais serão julgados no tribunal da Santa Sé.

            Assim, o processo no tribunal eclesiástico foi simplificado, mas isso não significa que a Igreja escancarará a porteira e passará a "anular" todos os casamentos. O julgamento será mais rápido e o processo mais barato. Mas, se não houver provas de que o casamento não existiu, a nulidade não será declarada. Porque o que Deus uniu, o homem não deve separar.


Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, diante desse mundo que optou pelo descartável, o amor está ferido no coração de muitas pessoas. Iluminai as profundezas de minha alma para que eu possa investir todas as minhas energias em Vós e em vosso amor. Assim seja! Amém! 

Pe. Demetrius dos Santos Silva


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A Esposa de Jesus

Jesus respondeu: «Vocês estão enganados, porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus. Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu.  (Mc 12,24-25)

Em 2012, foi anunciada a descoberta de um manuscrito que “provava" que Jesus era casado e que sua esposa se tornaria uma discípula. Assim, logo se formou um intenso debate sobre a autenticidade do manuscrito. Vários estudiosos saíram na defesa do manuscrito e declararam as bodas de Jesus. Outros estudiosos afinados com a Igreja colocaram o manuscrito sob suspeita. 

Recentemente, estudiosos das universidades Harvard, Columbia e MIT (Massachussetts Institute of Technology), declararam que o manuscrito é autentico e que ele foi escrito entre os séculos 4 e 6 d.C.

Há muita gente preocupada com esse manuscrito. Mas não criemos pânico. Vejam, dizer que um manuscrito é autêntico não significa dizer o que seu conteúdo seja verdadeiro. Dizer que um manuscrito é autêntico significa dizer que ele é bem antigo e que ele pode ser de uma data próxima ao tempo dos manuscritos bíblicos. 

Quanto ao manuscrito em questão ele é autêntico mesmo, porém ao que tudo indica ele foi levemente alterado ou corrigido. Ele foi escrito em copta, uma língua derivada do grego, um pouco mais nova que o grego bíblico, e sua grafia indica um texto mais tardio que o do Evangelho. 

A palavra "Esposa", isto é "minha mulher" está grifada, o que indica rasura, e isto significa que o texto foi provavelmente alterado numa época um pouco mais recente. Não é comum nos manuscritos coptas a existência de grifos. O texto também contém diversos erros gramaticais. Assim, apesar de ser autêntico, o manuscrito carece de credibilidade por ter sido provavelmente alterado, e isso será o debate dos próximos anos. 

Mas os apressados já imprimiram os convites do casamento de Jesus, alugaram salão, contrataram buffet e já marcaram o salão de beleza para Madalena. E contrataram Anás e Caifás para celebrarem o matrimônio. Só que não!!!

Papiro Rylands 52 - Jo 18,31-33.37-38 (+/- 130 d.C.)
Esse é antigo de verdade
Por fim, mesmo que o manuscrito não tivesse sido alterado, um texto tardio tem menos credibilidade que os Evangelhos bíblicos. E os Evangelhos tratam Jesus como um homem sem esposa, a não ser a própria Igreja. Neste sentido, encontrar um manuscrito sobre a vida de Jesus não significa que ele tenha esposa, pois existem inúmeros manuscritos também autênticos e mais antigos que falam que Jesus não teve esposa... 


Assim, tenho certeza que a única esposa que Jesus tem é a Igreja... Os manuscritos bíblicos são autênticos e contém a verdade já assumida há séculos na Igreja. Prefiro sempre os Evangelhos... Sempre!!!


Pe. Demetrius Silva