segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O ÓDIO AO PAPA E AOS BISPOS


"Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês”. (Mt 5,11-12)

Espanta-me o ódio que muitos cristãos internautas têm pela CNBB e pelo Papa Francisco. A formação cristã vinha de uma boa catequese, de boas homilias, de círculos bíblicos, de uma vida engajada na comunidade e de uma espiritualidade de profunda raiz evangélica. Hoje, alguns formadores de opinião nas redes sociais apresentam aos cristãos uma formação rasa baseada numa leitura obtusa que permite o ódio e o xingamento de bispos, padres, CEBs e até do Papa.

Na Igreja sempre existiu grupos mais conservadores, ou liberais, ou mais espirituais, ou carismáticos ou libertários. A diferença é uma riqueza na Igreja. Porém, quando um ou outro grupo se tornou fundamentalista e quis impor aos outros grupos as suas ideias obtusas, a Igreja amargou grande prejuízo. A visão fundamentalista nunca fez bem à Igreja e ela sempre machucou os irmãos e irmãs. O fundamentalista sempre ofende quem não pensa como ele.

Quando olhamos para Jesus, percebemos que o Mestre nunca foi fundamentalista, pois sempre dialogava com firmeza, sem perder o respeito e a ternura. Jesus fez refeição com os pobres, com cobradores de impostos (Mt 9,9-10), com os fariseus e mestres da lei (Lc 7,36-37), etc. Grupos diferentes, com ideias diferentes receberam a presença e a Palavra do Mestre.

Voltemos ao ódio que cristãos formados pela internet têm da CNBB e do Papa. Na Igreja, o vínculo do respeito nasce do Evangelho e do voto (ou compromisso) de obediência. Padres e diáconos, freiras e frades, monges e monjas, bispos e cardeais se comprometem a obedecer seus superiores diretos e ao Papa. Por amor ao Evangelho do Mestre e pela santa obediência respeitamos nossos bispos, amamos nosso Papa, etc. 

Por outro lado, em relação aos cristãos leigos e leigas, o respeito nasce somente do Evangelho, pois eles não fazem o voto de obediência. Aos leigos resta apenas o Evangelho. É do Evangelho que nasce a postura amorosa na imitação do Mestre. O fundamentalismo de qualquer espécie nega e renega o Evangelho e descamba numa atitude de total desrespeito para com tudo  e todos os que pensam diferente.

Quando vejo gente católica tratar com ódio nossos bispos e Papa, sinto que o desconhecimento do Evangelho está a causar danos que podem ser irreparáveis. O amor aos nossos pastores e o diálogo amoroso na discordância são atitudes vivas da catolicidade.

Como católicos não podemos tolerar o ódio a ninguém. Ainda mais ódio aos pastores escolhidos pelo Bom Pastor. Não podemos tolerar o ódio a CNBB. Mas nossa resposta será a de sempre: ternura e diálogo, pois nosso modelo é Jesus Mestre.

Termino com uma má notícia: se você deixa de ouvir e seguir o Papa e os bispos, para ouvir e seguir youtúberes, facebúqueres e outros que dão voz ao fundamentalismo e ao desrespeito, você já deixou de ser católico faz tempo… 



ORAÇÃO: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, amo os pastores que pusestes à frente da Igreja. Sei de seus defeitos e de suas limitações, mas confio em vossa bondade e na vossa sabedoria. Confiastes em Pedro, mesmo depois da negação. Confiastes em mim, mesmo sabendo quem sou. Dai força aos nossos pastores, afim de que sejam como Vós. Amém.

Pe. Demetrius Silva


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O DESERTO DA SOLIDÃO

Naquele tempo, o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre animais selvagens, e os anjos o serviam. (Mc 1,12-13)

O deserto representa a vida como ela é. A vida não é um mar de rosas. Ela é uma aventura que começa com a concepção e termina com nossa morte. Quando somos expulsos do ventre de nossa mãe inicia-se o processo de solidão que nos acompanhará até nossa morte. Ser pessoa, ser indivíduo implica em ser só. A solidão é a nossa principal realidade e quando mais rápido a aceitarmos, mais fortes serão as nossas relações com os outros. Sim, isso é paradoxal: reconhecer a realidade de nossa solidão faz com que tenhamos um melhor relacionamento com as pessoas.

Tenho uma amiga que está há vários anos acamada. Depende dos outros para tudo. Não consegue se comunicar. Rodeada de pessoas que a amam, ela está só, como que presa dentro de seu corpo. Com meu velho pai também foi assim: passou cinco anos acamado e sua mente foi se apagando pelo Mal de Alzheimer. Estava rodeado por nós que o amamos, mas estava só. Morreu só. Todos morremos só, pois a morte é uma experiência pessoal, assim como o viver também o é. Eis o nosso deserto.

Uma das grandes neuroses humanas é o medo da solidão. A experiência da solidão é extremamente dolorosa para muita gente. Muitos, diante da solidão, enfrentam insuportável angústia que chegam a dar cabo da própria vida. Do outro lado, existem pessoas que amam a solidão e aprenderam a vivê-la com serenidade, pois descobriram que esta é a verdadeira condição humana. É na solidão onde muitas vezes se dá nosso encontro com o Absoluto.

Muitas pessoas me perguntam, pelo fato de eu ser padre, se não me sinto só. Minha resposta: sim, me sinto só. Mas também respondo: eu gosto da solidão, sou feliz sozinho. Deus me fala no deserto da solidão. A solidão me cai bem e não tenho medo dela. Ao tomar consciência de minha solidão, aproveito melhor minhas amizades e consigo fazer melhor meu trabalho, dentro de minhas muitas limitações. Sei de minha solidão e sei da solidão de minhas irmãs e irmãos. Assim, experimento que a amizade verdadeira nasce da solidão, pois quem convive comigo convive na gratuidade da amizade de quem ama.

Sobre o futuro: o envelhecimento é um grande ensaio de solidão. Amigos e amigas vão morrendo e quem fica se vê sozinho e já não consegue se comunicar com as gerações mais jovens. Estas não escutam os mais velhos que “voltam a ser crianças”. Isso é deserto. Envelhecer bem implica na aceitação da solidão que é a escola do diálogo com Deus. As grandes orações são nascidas nos momentos de solidão. Por isso quem mais reza nas Igrejas são as idosas e idosos, arautos que conclamam a Deus com suas preces de amor.

Uma confissão: gosto de ficar sozinho e sinto que Deus me chama à solidão. Sonho em morar sozinho numa casinha muito pequena onde poderei rezar e passar meus últimos dias em oração preparando-me para sair do deserto da solidão para entrar no Jardim de Cristo, o Éden do Pai Eterno.



Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, fazei que eu contemple vossa solidão no deserto, no Getsêmani e na cruz, e perceba que a minha solidão no deserto da vida é ocasião privilegiada para estar convosco e experimentar vosso amor. Assim seja. Amém.


Padre Demetrius Silva


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

ESPERAR CONTRA TODA ESPERANÇA

"Esperando, contra toda a esperança, Abraão teve fé e se tornou pai de muitas nações…" (Rm 4,18)

A realidade brasileira representa um enorme desafio para a fé cristã. Os já sabidos esquemas de corrupção que envolvem as grandes empresas, a política e os poderes da república vieram à tona e se tornaram claros aos nossos olhos. A descoberta que partidos políticos, sindicatos, ONGs, polícias (e até igrejas) estão envolvidas com a sujeira mais imunda jogada sob os tapetes do país faz com que os homens e mulheres seguidores de Jesus percam a esperança de um futuro melhor.   

A desesperança causa imediatamente o enfraquecimento do profetismo das igrejas e a individualização da relação da vivência religiosa juntamente com a mistificação mágica dos ritos católicos e a supervalorização de elementos secundários da liturgia: roupas, insígnias, paramentos, pompas, entre outros.

No cristianismo, quando se perde a esperança, dá-se demasiada importância para aquilo que não é o mais importante. O secundário, que tem sua importância apenas se relacionado com o fundamental, passa a ser colocado como principal. Desta forma, o Evangelho deixa de ser o assunto principal na Igreja e os cristãos passam a discutir frivolidades como se fossem o caminho da salvação.

Quando os cristãos olhamos para fora da janela e vemos um país caótico onde os valores que nos definiam caíram por terra e o Evangelho não encontra espaço para transformar os corações, nosso olhar se volta para dentro de nossas sacristias e nos apegamos aos distintivos da fé para sentirmos um pouco de segurança ante o caos. É assim que roupas com rendas ocupam boa parte da atenção dos cristãos e cristãs.

As comunidades cristãs fecham-se em si mesmas e já não sabem como lidar com os pobres e excluídos da sociedade caótica. Muitos cristãos desesperançados passam a aceitar a violência como uma saída para os problemas atuais. A pena de morte e a tortura passam a ser uma ideia possível nas mentalidades de gente que se diz seguidora de Jesus.

É nesse contexto horroroso que os cristãos, mais do que nunca, precisam abraçar a esperança, pois a verdadeira esperança existe no coração de quem tem o sentido de viver. É preciso olhar para fora da janela e, vendo o caos, enxergar o sentido para além do caos. Há uma gigantesca messe de gente sem esperança e sem sentido de viver esperando trabalhadores para a colheita da esperança. Gente sedenta por ver além do caos, mas que não encontra quem lhes mostre o sentido da vida, pois estamos ocupados em olhar para dentro de nossas sacristias enquanto discutimos os modelos de túnicas, batinas e casulas.

Se Jesus Mestre é nosso modelo, não podemos nos dar ao luxo de confundir o secundário com o fundamental. Não nos é permitido "coar o mosquito e engolir camelo” (Mt 23,24). Jesus sempre enviou seus discípulos ao encontro do povo no caos do mundo e não lhes permitiu se refugiar nas "sacristias da vida” e a tratar vestes como o centro da vida cristã.

Precisamos nos convencer que nosso melhor papel nesse tempo de caos é semear esperança. A esperança que brota do sentido de Cristo. Olhar para fora da janela e superar a tentação do fechamento na sacristia, recolocar o secundário no seu lugar e o fundamental no centro de nossas atenções. Como num navio afundando, onde todos se desesperam e se pisoteiam, nós estaremos ajudando as pessoas a se acalmarem e se salvarem, pois sabemos onde se encontram os botes salva-vidas. Se conhecemos o sentido de Cristo, a esperança não morrerá dentro de nós.



Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, sois a fonte de esperança em minha vida. Não permitais que eu perca a esperança de ver e contribuir para a construção de um mundo melhor. Fazei que eu perceba o que é fundamental e que nunca coloque o secundário acima do que é mais importante. Assim seja, amém!


Pe. Demetrius Silva

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Banalização do Amém no Catolicismo

Disse Jesus: Ao anjo da igreja que está em Laodicéia, escreve: "Assim fala o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus”. (Ap 3,14)

A palavra Amém sempre foi, para a Igreja Católica, um indicativo de adesão e afirmação de fé. Utilizada nos finais das orações e profissões de fé, ela estabelece nossa total adesão à verdade que se impõe à nossa razão. O Amém é utilizado em momentos fortes de nossa relação com Deus.

Ultimamente, vemos em nossa Igreja a banalização da palavra Amém. O Amém está sendo utilizado como uma interjeição sem sentido, um cacoete sem nexo com a fé. Há muitos anos, o Amém já havia sido banalizado nas igrejas pentecostais. Esse fenômeno, agora também pertence à nossa Igreja. Recentemente, numa missa, o comentarista falava: “Amados, no próximo fim de semana teremos festa. Amém? Na quinta-feira vai acontecer o terço na casa da dona Maria. Amém? No dia 15, teremos ensaio. Amém?”

O Amém é uma palavra hebraica (אָמֵן) que indica a ideia de firmeza e de realidade. Alguns estudiosos relatam que o Amém era a última estaca pregada ao chão para dar firmeza à tenda. De difícil tradução, popularizou-se a  ideia de que significa assim seja. É fato que essa palavra não tem tradução direta para a nossa língua.

No Evangelho de São João, Jesus diversas vezes diz a palavra Amém. Por exemplo: ”Jesus respondeu, e disse-lhe: Amém, amém eu te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus". (Jo 3,3) Aqui, a palavra Amém é traduzida pela expressão "em verdade”. Indica uma máxima de testemunho de fé.

Em todos os sentidos, o Amém é utilizado somente em coisas muito sérias. E dizer “Amém” para qualquer coisa demonstra nosso pouco conhecimento e vivência de fé. Infelizmente, ainda importamos coisas ruins de outras Igrejas. Nós católicos não devemos dizer amém para tudo. Devemos nos corrigir desse cacoete pentecostal e retomar  a importância dessa palavra nos momentos cruciais de nossa caminhada de fé. Se hoje tem gente na Igreja que fala amém para tudo, muitos não dizem o amém quando vão comungar o Corpo e o Sangue de Jesus. O padre diz: “O Corpo de Cristo”, e a pessoa toma a hóstia sem nada dizer. 

O amém é palavra de Fé, e como como palavra de fé deve manifestar a Fé que recebemos da Igreja, através das Escrituras e da Sagrada Tradição. 

Por fim, é importante lembrar que Jesus Mestre é o verdadeiro Amém, para a glória de Deus Pai. É Ele quem dá sustento para a nossa fé e corrige nossos desvios pela ação de seu Evangelho. Jesus é a Verdade e, com isso, o seu Amém foi na Cruz a adesão de seu sangue derramado para a salvação de todos. O amém não deve ser banalizado jamais.



Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, o Amém e a Testemunha Fiel, fazei que a Verdade que sois vós, ilumine a minha vida de tal maneira, que eu possa ser um convosco. Assim seja. Amém! 



Pe. Demetrius dos Santos Silva

sexta-feira, 5 de maio de 2017

E Quando o Padre Perde a Vida?

Disse Jesus: “Esta é a vontade do meu Pai: que todo homem que vê o Filho e nele acredita, tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”. (Jo 6,40)

Recentemente, a notícia de que padres cometeram suicídio escandalizou muitas pessoas. Cristãos, ateus, profissionais da saúde, bispos, leigos, padres, etc., ficaram chocados porque homens que lidam com o sentido da vida perderam o sentido de viver.

Algumas pessoas (ingênuas) descobriram que os padres também têm sentimentos e que podem sofrer. Outras perceberam que muitos padres derramam o seu suor até a exaustão para ajudar as ovelhas que sofrem, mas eles não têm quem os ajude a enfrentar seus próprios problemas.

Sozinhos, incompreendidos, exaustos e frustrados, os padres nem sempre encontram força na oração e na espiritualidade, e acabam buscando conforto na bebida, no luxo ou nos braços de outra pessoa que não é Cristo. Por fim, há aqueles que tiram a própria vida. Vida que já havia sido tirada numa rotina de ativismo em meios às críticas mais cruéis e perversas.

Se você ainda não sabia, fique sabendo: nós, padres, somos seres humanos. Temos defeitos, sentimentos, fraquezas, limitações. Colocamos nossa vida nas mãos de Deus e Ele é quem faz de nós criaturas novas. Mas, alguns de nós não conseguem cultivar o sentido de Cristo numa vida exaustiva e sem “retorno” de seus trabalhos.  

Também formou-se na Igreja um clima de perseguição online dos padres. Se o padre erra na liturgia, logo é denunciado no facebook, ou é acusado ao bispo ou a nunciatura. Se o padre pensa diferente de determinados grupos conservadores, estes logo difamam o padre em sites e redes sociais.

Toda semana eu sou obrigado a responder pessoas que criticam a “comunhão na mão”. Toda semana eu devo me explicar porque eu não uso casula em todas as missas. Toda semana sou obrigado a ouvir pessoas que pedem punição aos grupos de oração porque rezam em línguas ou fazem o tal do repouso no espírito. Tudo isso suga as poucas energias dos padres.

Diante desse clima e dessas circunstâncias, nós padres buscamos somar forças com outros padres na busca de uma espiritualidade que nos sustente diante de tantas adversidades. Tenho pessoalmente encontrado força na espiritualidade discipular e me imagino como um “eremita urbano”. Um homem que vive no meio da comunidade, mas que cultiva a solidão de estar com Cristo na Bíblia e no céu estrelado acompanhado por um telescópio.

Nós precisamos repensar nossas comunidades e paróquias. Nos tornamos especialistas nas mais diversas pastorais, movimentos e grupos, gastando tempo e energia com reuniões e atividades inúteis, e abandonamos nossa especialidade primeira: formar discípulos e discípulas de Jesus. Creio que nós, padres, bispos e diáconos, seremos mais felizes se nos dedicarmos ao essencial: Cristo e comunidade. Esse assunto continua... Paz e bem!



Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, fazei que o sentido de minha vida seja vossa pessoa a me conduzir ao Pai. Seja vossa Palavra e vossa Eucaristia, o alimento a me sustentar neste mundo tão complexo. Seja o vosso Espírito a luz que alumia o meu caminhar entre as trevas da ignorância. Que na solidão eu não me sinta só, pois estais comigo. Assim seja, amém!

Pe. Demetrius Silva

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Na Beira do Abismo

Tu me atiraste no abismo, bem no fundo do mar. Ali as águas me cercavam por todos os lados, e todas as tuas poderosas ondas rolavam sobre mim. (Jn 2,3)

Nos últimos dias sinto que existência humana chegou à beira do abismo. A selvageria irracional eclode em todos os lugares de tal maneira que a racionalidade, característica principal que define o ser humano, encontra-se moribunda. A insanidade generalizada de nosso tempo assume formas trágicas de violência que alcançam os limites do absurdo e, como um ralo no fundo de uma piscina, busca dragar-nos retirando-nos a possibilidade de viver a paz e em paz.

Muitas vezes perguntei a mim mesmo se ainda vale a pena lutar pela paz e anunciar o amor, pois sinto que estamos muito próximos da autoextinção. Mesmo com o desejo de desistir, lembro-me de São Paulo a nos dizer: “Ai de mim se não evangelizar!” (1Cor 9,16). O anúncio do Evangelho não é uma opção do discípulo de Jesus, mas é uma necessidade vital.

Quando alguém é marcado por Cristo, toda a genética de sua alma é transformada por Ele de tal forma que a vida não encontra sentido fora dEle. Diante do abismo em que encontra-se a humanidade, só em Cristo teremos força de continuar caminhando para frente.

Soren Kierkegaard, cristão e filósofo, dizia: “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas, só pode ser vivida olhando-se para frente”. Todo abismo gera medo e incompreensão. Mas é diante do abismo que podemos crescer de forma absoluta. É agora o momento onde a humanidade pode ser verdadeiramente humana. O abismo não é o fim, mas sim a grande oportunidade de darmos um salto em direção ao infinito e absoluto. É crendo em Cristo que daremos esse salto.

Chesterton dizia: “Quando estamos na beira do abismo, a única maneira de progredir é retroceder”. Discordo. Há abismos que não nos permitem voltar atrás. Ou ficamos parados ou damos o salto. Kierkegaard também dizia: “A porta da felicidade abre só para o exterior; quem a força em sentido contrário acaba por fechá-la ainda mais”. É no momento difícil diante do abismo que a humanidade pode dar um salto para a felicidade. É em Cristo que o salto alcançará o absoluto. Paz e bem!

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, encontro-me diante do abismo unido a toda humanidade. Diante da escuridão total, apenas em Vós encontro luz. Confio que, caminhando para frente, encontrar-me-ei convosco e que vossas mãos me segurarão em toda queda. Assim seja, amém!



Pe. Demetrius Silva

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO

 
           A fé cristã é diferente de todas as outras. A religião cristã é incompreendida e perseguida em muitos lugares. Ela é tida por absurdo pelo fato de crer que Deus é único, mas é três pessoas e, assim, a fé cristã é acusada de ser um politeísmo (crença em vários deuses) disfarçado. Mas, o que mais escandaliza todas as outras religiões é a ideia de que Deus imutável possa mudar e assumir plenamente a realidade humana: Deus encarnou-se, isto é, fez-se humano e assumiu a imagem e semelhança de sua criatura.

            A encarnação de Cristo, na plenitude dos tempos, inseriu em nossa temporalidade que passa um relampejo da eternidade que não passa. Este relampejo que durou cerca de 33 anos transformou todo o universo inserindo em cada partícula a semente da salvação.

            Porém, não podemos nos enganar. A encarnação de Deus não é um conto de fadas e nem uma história de ninar. A criação toda está gemendo em dores de parto (Rm 8,22) e o sofrimento humano é compartilhado por todas as criaturas. É nesse mundo de dor e sofrimento que Jesus, epifania do amor do Pai, encarnou-se. Ele tornou-se frágil, sendo uma criança que necessitou de todos os cuidados de mãe e de pai. Ao assumir a carne humana, Jesus teve a necessidade de ser cuidado por Maria e José, num tempo de perseguição e extremo sofrimento. Nada de fraldas descartáveis e pediatras de nosso tempo.

            A encarnação é escândalo porque a cruz é escândalo. Jesus nasce para morrer na cruz. A Encarnação acontece em função do mistério pascal.

            A humanidade, no início, optou por conhecer o mal e foi seduzida pela serpente e assim desfigurou-se sua imagem: de imagem e semelhança de Deus, nos tornamos imagem e semelhança da antiga serpente. Não dá para permanecer no jardim de Deus sem ser semelhança dEle. Desse modo, a humanidade foi expulsa, ou melhor, expulsou-se de Éden. Deus, em diversas tentativas, quis trazer a humanidade de volta ao jardim. Mas, a humanidade continuava a optar pelo mal enamorando-se pelo pecado.

            Deus então resolve sair do jardim para, Ele mesmo, reintroduzir a humanidade em Éden. Deus fez-se imagem e semelhança do humano, para mostrar como devemos ser humanos. Cristo assumiu a carne humana em sua total fragilidade e ocupou a posição mais baixa: a de escravo. E, passando pela cruz (a pior morte), venceu o fruto do pecado (a morte) e reintroduziu a a humanidade no jardim celeste.

            O Mistério da encarnação só pode ser entendido sob a penumbra do Mistério da Cruz. E o Mistério da Cruz não pode ser entendido, mas experimentado no amor. Ao tornar-se a criança de Belém, Jesus dava o primeiro passo para reintroduzir-nos no Paraíso. Na cruz, Jesus dava a própria vida, o último passo da salvação. Da cruz, todo o resto é consequência do amor: a ressurreição e o Reino definitivo. Como discípulos de Jesus, a encarnação também deve ser o primeiro passo...


Paz e Bem e Feliz Natal!


Padre Demetrius

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Discípulo Cansado

Ele, porém, me respondeu: «Para você basta a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder.» Portanto, com muito gosto, prefiro gabar-me de minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. E é por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte. (2Cor 12,9-10)


Mestre, preciso te falar
Chego ao fim deste dia cansado, exausto.
Mas, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Meus passos estão mais curtos.
Minhas mãos perdem firmeza.
Minha memória... Esqueci...
Mestre, meus olhos são falhos...
Meus ouvidos querem ficar moucos.
Pois, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Minhas células se tornam tóxicas,
Minha voz enfraquecida
Canta e grita sem ser ouvida,
Minhas idéias esquecidas
São o que sobrou de mim.
A gravidade se faz mais pesada
Sobre meu frágil esqueleto
E meu coração vacilante
Bate errado a todo instante.
Mas, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Mestre, quando eu olho à minha volta
Vejo triste poucas formas.
Como num espelho turvo
Vejo os outros em sofrimento.
Somos como uma família
Muito unida no sofrer.
Já não tenho otimismo
Porque venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Mestre, perdoa-me os lamentos,
São meus pobres sentimentos
Que eu quero partilhar.
Sei que me escutas,
Meus resmungos e lamúrias
E meu coração a reclamar.
Mestre, eu sei muito bem
Que sofreste muito além
Do que eu possa imaginar.
Mas, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.

Mestre, já estou de saída
Pois eu venho na lida
Para te anunciar.
Porém, eu compreendo
Que nas minhas fraquezas
Tua força está.
Mestre, todo o meu cansaço,
Todo o meu sofrimento
Quero te ofertar.
Mestre, venho cansado já há algum tempo.
Cansado da vida, cansado da sina, cansado de mim.
Mas, não me canso de Ti,
Não me canso de ti.
E não me canso de ti.



Pe. Demetrius


sábado, 14 de maio de 2016

O Espírito Santo é Especialista em Cristo


Arte: Lúcio Américo Arte Sacra
Disse Jesus: "O Espírito da Verdade manifestará a minha glória, porque ele vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês. Tudo o que pertence ao Pai, é meu também. Por isso é que eu disse: o Espírito vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês." (Jo 16,14-15)

Padre, por que a Igreja fala tão pouco do Espírito Santo?  Essa pergunta foi-me feita por uma jovem, após um retiro onde ela experimentou a vivência do Espírito Santo.

De fato, das pessoas da Santíssima Trindade, o Espírito Santo é o menos falado. Mas, não é à toa. Para entendermos a questão, encontraremos a resposta no jeito de ser do próprio Espírito Santo.

O Pai que tudo cria, cria por amor ao contemplar o amor de seu Filho unigênito. O Filho, ao contemplar o amor do Pai, salva todos por amor. O amor do Pai para com o filho, e o amor do Filho para com o Pai é tão gigantesco que não se contém. O amor infinito entre o Pai e o Filho, amor que não se contém, é tão maravilhoso que não é apenas um sentimento, mas uma pessoa: o Espírito Santo.

O Pai nos dá o maior e melhor presente: o Filho unigênito. Ao amar e louvar o Filho, estamos amando e louvando o Pai. A alegria do Pai é ver seu Filho amado por todos.

O Espírito Santo é o especialista em Jesus. É o Espírito Santo que mantém entre nós e em nós a presença de Jesus, caminho que leva ao Pai. Sem o Espírito Santo não há vida. O Espírito Santo só sabe falar de Jesus. Se o Pai nos dá o Filho e o Filho só sabe falar do Pai, o Espírito Santo só sabe falar de Jesus. O Espírito não fala de si mesmo e, por isso, pouco aparece. Mas sua presença é fortemente sentida por quem ama a Deus, pois é o Espírito que coloca dentro de nós a presença de Jesus.

O Espírito Santo é tímido para falar de si e extrovertido para falar de Jesus. Quando nos abrimos ao Espírito Santo nosso ser fica totalmente sedento de Jesus e por Ele somos guiados. Os dons doados pelo Espírito nos enchem dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus.

Assim, o Espírito Santo nos ensina que tudo deve ser por Cristo, com Cristo e em Cristo e isso explica por que falamos tão pouco do Espírito Santo, pois para Ele só Jesus interessa. O Espírito Santo é o toque suave do amor de Cristo que nos leva ao Pai. Paz e bem!!!

Oração: Senhor Jesus Cristo, Mestre de mim, enviai vosso Espírito Santo sobre mim afim de que eu possa fazer vossa vontade, que é a vontade do Pai. Que o Espírito da verdade coloque dentro de mim a vossa presença e que o amor Pai resplandeça em minha vida. Assim seja. Amém


Pe. Demetrius Silva